domingo, 5 de janeiro de 2014

E depois do nada, vem o quê?

Eu prometi que não iria virar a cabeça, que não pararia para ver o que deixei para trás em momento nenhum. E por tantas vezes o movimento foi mais rápido que o pensamento e só o que pude ver foram seus olhos tristes me pedindo, sem palavras, para que ficasse. E eu fiquei.

Fiquei porque seus beijos eram os melhores e eu nunca poderia encontrar nada igual; seus abraços me renovavam a energia independente do meu estado emocional; porque toda vez que você me dizia não, eu ficava para lutar pelo seu sim; e quaisquer fossem seus defeitos, você seria sempre a melhor pra mim.

Eu fiquei tantas vezes que não imaginava mais o que seria não ficar. E você se tornou o ar que eu respirava. Mas tudo que entrava no pulmão era poluição e estava me fazendo mal. E você foi me corroendo por dentro até não sobrar mais nada. E depois do nada, vem o quê?

Eu prometi não virar a cabeça, mas virei. E quando olhei para trás, você já não estava. Havia enchido sua mala de sonhos e planos que nunca realizaríamos e ido para bem longe de mim. Procurei pelos cantos da casa algum sinal de você, ou, até mesmo, um bilhete de adeus. Nada, nada, nada.

Respirei fundo. Pela primeira vez não senti dor. E você foi embora sem olhar pra trás, sem olhar pra mim, sem pedido algum. E agora eu sei como é ficar sem você. E agora eu sei o que vem depois do nada. E agora eu sou sem você.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que as palavras não dão conta

Eu preciso te dizer o que as palavras não dão conta. É que por tanto tempo achei que se não entendesse o que sentia, nada poderia falar. Foi assim que deixei que os anos passassem sem que você pudesse saber que o que sinto vai muito além da prisão significada em letras agrupadas; e muito além do que qualquer um de nós pudesse compreender. 

Eu preciso respirar daquele jeito de quando eu te olho: profundo e entrecortado como um suspiro.  E como quando você me toma em seus braços: breve e sorrido. E da forma que o ar entra e sai dos meus pulmões quando você vai embora: espaçado, breve e intenso. É a minha pele que te diz com arrepios o que eu sinto quando você se aproxima devagar e, sem jeito, me pede para ficar essa noite.

Agora eu sei. Sei que é o movimento cauteloso do meu lábio para sorrir, o leve estremecer das minhas mãos para tocar, o sutil movimento das pálpebras para piscar... É meu corpo que sente, vibra, se movimenta. É ele quem vai te dizer o que as palavras nunca puderam e nem poderão. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Para você ir embora

Você é tão importante que não sei como dizer adeus. É que passa tempo e você vem de novo, de novo, sempre assim. E eu sempre acho que dessa vez sua mala está vindo cheia. Abro espaço no guarda-roupa para você guardar as coisas que trouxe e ainda vai trazer. Ai, você vai embora de novo e deixa tudo vazio aqui dentro. E no tempo ocioso eu preencho esse espaço com os sonhos que guardei do dia que você vai vir pra ficar de vez.

É que tá tudo ficando cada vez mais do mesmo e eu tô pensando em trocar a fechadura da porta para ver se você, no mínimo, toca a campainha antes de entrar. Parece que você não se importa em invadir meu espaço mesmo vendo o mal que me causa. E cada vez que vem planta as suas sementes e vai embora sem ver as lindas flores que elas se tornam. 

Eu estou respirando fundo há anos para arrumar a coragem que preciso para te dizer isso. Encarar teu olhar cheio de falsas verdades que você cisma em contar. Encarar as minhas falhas expectativas do final dessa história cheio de felizes para sempre. 

Eu apenas quero que você vá embora. E me abrace bem forte para sentir o quão importante você é. É que eu estou cansada das palavras amargas do calor do momento que não param de rondar meus pensamentos depois que você se vai. E mentir não vai tornar nada mais fácil. Eu quero que você saia e meus olhos estão transbordando todos os planos que tenho e saudades que já sinto. 

Eu quero que você vá e, dessa vez, não volte nunca mais. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

30-10-13

Sai na rua para comprar pão e me encontrei com nós dois. Estávamos de mãos-dadas como sempre e pelo teu silêncio e minha cara, havíamos acabado de brigar. Bastava olhar de longe para sentir a tensão - e o tesão - entre nós dois. Bateu saudade.

Saudade da tua pele, do teu cheiro, do teu gosto. Saudade dos beijos, do carinho e do sexo. Saudade até do teu cigarro, da minha alergia e da nossa poesia.

Mais tarde precisei ir à farmácia e nos vi mais uma vez. Estávamos comprando camisinhas; nos olhávamos com pressa. Quis chegar perto, mas não queria, de forma alguma, interromper o nosso momento. Senti dor.

Dor na garganta com o embaraço que as lágrimas faziam. Dor nos olhos que queriam cegar diante de nós. Dor no peito que comportava um coração acelerado. 

Corri para casa e encontrei conosco no elevador, no corredor, no quarto... Gritávamos, chorávamos, nos amávamos. Tentei fugir e nos vi na porta. Você me olhava, eu chorava e continuava repetindo que fosse embora. Tentei gritar, não tinha voz. E você foi descendo as escadas desde o décimo andar para não esperar o elevador. Senti esvaziar.

Meus olhos esvaziaram a garganta. Minha garganta esvaziou o grito. Meu grito esvaziou a dor. A casa, o corpo, a vida se esvaziaram de você. Eu não; Corri pelas escadas, te encontrei  e me deixei aqui.

Lembrei da farmácia, dos remédios, da hora. Esqueci as sacolas. Preciso voltar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Deixe que siga

Percebe que não tem nada que te prende. Essas mãos que você sente te segurando e puxando para baixo são as suas próprias mãos. Disseram que o tempo ia passar e curar toda essa dor. Era mentira. Não importa quantas vezes o sol se pôs, você está presa no seu tempo. Não é passado, porque você não deixa que passe. Seu tempo não quer seguir. Deixe que siga.

Os anos foram chegando em velocidade cada vez maior e você não acreditava que ele resistiria aos invernos. É que ele já foi embora há tanto tempo... Você insiste em mantê-lo presente como se só esta imagem desse conta da vida. E você diz que é fácil falar. Difícil mesmo é te ver sofrer assim. Com esse sorriso congelado no rosto que não expressa nada mais do que um descompasso com o mundo aí fora. Presa no mesmo lugar; estanque. Deixe que flua.

Não há lamento, novo amor, nem Cronos que leve ele daqui. Sorria o seu melhor sorriso; aquele brilho nos olhos como quando você olhava pra ele num domingo a tarde e o sol se punha deixando tudo laranja. Se veste daquela sensação de paz e retoma seus passos. Diga adeus e leve-o até a porta. Ele já foi, agora você é quem precisa deixá-lo ir. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

É não e é sim, tudo junto

Entende? Como eu te disse: é não e é sim, tudo junto. Não é confuso, não é esquisito, é só paradoxal. E a vida é outra coisa além de um constante paradoxo? É que nem sempre dá para juntar todas as partes e resultar em arrumação. Às vezes é bagunça mesmo e eu estou completamente bagunçada de você, dessa dor, desse não-talvez-quem sabe. Desalinho e eu não gosto de linhas. Não gosto dessa reta chata e monótona que você tenta enquadrar nós dois. Porque eu não sou quadrada, não sou formal e não sou fácil. E você não me entende, já sei. E que se dane o entendimento, porque eu não tou falando de explicação e de adequação. É curva, desvio e foi e sumiu.

E eu não quero falar sobre isso, não quero usar metáforas e nem me fazer entender. Quero quando quero e quando não quero não quero e não tenta ler algo além do que tá escrito. Não me teoriza que eu não sou ordenada, não sou coerente e nem generalizável. Não me pede pra me encaixar na sua história, pra agir como seus personagens, pra fazer sentido. Só me encaixo nos seus braços vez ou outra e isso não significa mais do que dois corpos juntos e sintonizados. A frequência muda e não existe tudo igual, sempre igual, mais do mesmo.

Aquilo que você vê é apenas uma interpretação de tudo aquilo que posso ser. E tentar me interpretar com base nas histórias que você ouviu, viveu, pensou vai dar tão certo quanto achar que eu estarei aqui amanhã com a mesma forma que você me viu hoje. É que talvez amanhã eu queira mais do que isso que você me dá, ou seja menos do que você espera. E talvez a gente sintonize de novo e siga tocando juntos que nem aquela música que cantávamos nas tardes de segunda-feira quando tudo era calmo e a gente não precisava disso. Não precisava de explicação, de sentido, de definição.

Quando você não era tão chato, tão certinho, tão preocupado, tão sexy. E quando 1 + 1 podia ser 3 e ninguém se importava, porque matemática nunca foi meu forte e ainda bem que você tava lá. Eu não mudei, só sou outra. E um dos seus maiores erros é achar que dá pra saber o que estou sentindo/pensando/sendo baseado naquela visão que você construiu há tantos anos atrás quando o mundo era mais cor-de-rosa e eu era só uma romântica boba esperando príncipe no cavalo branco. É que depois que eu cai do cavalo de cara no chão, montar e seguir galopando não era mais tão fácil. E eu aprendi que o príncipe é chato e que prefiro o sapo, ou o cavalo preto, ou você quando não me pergunta o que quero.

Então não, não acho que você é meu príncipe encantando; não acredito mais no amor. Acredito no amar. E amar não é estanque e nem se prende ao tempo. É ação infinitiva que não se quer infinita e que acaba, muda, transforma, desforma. E quando sai da forma torna-se uma força potente que arrasta e leva tudo que está rondando por aí sem raízes. E me arrasta direto pra sua cama, pros seus braços, pro até logo está tarde preciso ir embora. 

domingo, 13 de outubro de 2013

Cansei

Eu cansei das mensagens não respondidas, das chamadas não atendidas, das noites mal dormidas. Eu cansei de quase, talvez, amanhã, melhor não. Cansei dos seus amigos, do seu cigarro, do seu beijo. Dessas meias palavras não ditas, da comida que está quase fria, da espera por uma volta do relógio que eu não sei qual. Cansei dos seus vícios, dos seus olhos e do seu carinho.

Cansei desse já estou indo não vou mais me espera que estou chegando dessa falta de vírgulas que me deixa sem tempo para respirar no meio dessa turbulência que é a sua presença ausente. E, cansei, das, pausas, que, você, faz, entre, o, vir, e, o, não, vir, enquanto, eu, te, espero.

Cansei do seu cansaço porque trabalhou muito durante a semana e da sua disposição que te tira da cama antes mesmo que o sol possa nascer. Cansei do só amigos e do pode deixar que eu te ligo. Cansei de estar cansada, do que me cansa e de só pensar em você.

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