quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que as palavras não dão conta

Eu preciso te dizer o que as palavras não dão conta. É que por tanto tempo achei que se não entendesse o que sentia, nada poderia falar. Foi assim que deixei que os anos passassem sem que você pudesse saber que o que sinto vai muito além da prisão significada em letras agrupadas; e muito além do que qualquer um de nós pudesse compreender. 

Eu preciso respirar daquele jeito de quando eu te olho: profundo e entrecortado como um suspiro.  E como quando você me toma em seus braços: breve e sorrido. E da forma que o ar entra e sai dos meus pulmões quando você vai embora: espaçado, breve e intenso. É a minha pele que te diz com arrepios o que eu sinto quando você se aproxima devagar e, sem jeito, me pede para ficar essa noite.

Agora eu sei. Sei que é o movimento cauteloso do meu lábio para sorrir, o leve estremecer das minhas mãos para tocar, o sutil movimento das pálpebras para piscar... É meu corpo que sente, vibra, se movimenta. É ele quem vai te dizer o que as palavras nunca puderam e nem poderão. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Para você ir embora

Você é tão importante que não sei como dizer adeus. É que passa tempo e você vem de novo, de novo, sempre assim. E eu sempre acho que dessa vez sua mala está vindo cheia. Abro espaço no guarda-roupa para você guardar as coisas que trouxe e ainda vai trazer. Ai, você vai embora de novo e deixa tudo vazio aqui dentro. E no tempo ocioso eu preencho esse espaço com os sonhos que guardei do dia que você vai vir pra ficar de vez.

É que tá tudo ficando cada vez mais do mesmo e eu tô pensando em trocar a fechadura da porta para ver se você, no mínimo, toca a campainha antes de entrar. Parece que você não se importa em invadir meu espaço mesmo vendo o mal que me causa. E cada vez que vem planta as suas sementes e vai embora sem ver as lindas flores que elas se tornam. 

Eu estou respirando fundo há anos para arrumar a coragem que preciso para te dizer isso. Encarar teu olhar cheio de falsas verdades que você cisma em contar. Encarar as minhas falhas expectativas do final dessa história cheio de felizes para sempre. 

Eu apenas quero que você vá embora. E me abrace bem forte para sentir o quão importante você é. É que eu estou cansada das palavras amargas do calor do momento que não param de rondar meus pensamentos depois que você se vai. E mentir não vai tornar nada mais fácil. Eu quero que você saia e meus olhos estão transbordando todos os planos que tenho e saudades que já sinto. 

Eu quero que você vá e, dessa vez, não volte nunca mais. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

30-10-13

Sai na rua para comprar pão e me encontrei com nós dois. Estávamos de mãos-dadas como sempre e pelo teu silêncio e minha cara, havíamos acabado de brigar. Bastava olhar de longe para sentir a tensão - e o tesão - entre nós dois. Bateu saudade.

Saudade da tua pele, do teu cheiro, do teu gosto. Saudade dos beijos, do carinho e do sexo. Saudade até do teu cigarro, da minha alergia e da nossa poesia.

Mais tarde precisei ir à farmácia e nos vi mais uma vez. Estávamos comprando camisinhas; nos olhávamos com pressa. Quis chegar perto, mas não queria, de forma alguma, interromper o nosso momento. Senti dor.

Dor na garganta com o embaraço que as lágrimas faziam. Dor nos olhos que queriam cegar diante de nós. Dor no peito que comportava um coração acelerado. 

Corri para casa e encontrei conosco no elevador, no corredor, no quarto... Gritávamos, chorávamos, nos amávamos. Tentei fugir e nos vi na porta. Você me olhava, eu chorava e continuava repetindo que fosse embora. Tentei gritar, não tinha voz. E você foi descendo as escadas desde o décimo andar para não esperar o elevador. Senti esvaziar.

Meus olhos esvaziaram a garganta. Minha garganta esvaziou o grito. Meu grito esvaziou a dor. A casa, o corpo, a vida se esvaziaram de você. Eu não; Corri pelas escadas, te encontrei  e me deixei aqui.

Lembrei da farmácia, dos remédios, da hora. Esqueci as sacolas. Preciso voltar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Deixe que siga

Percebe que não tem nada que te prende. Essas mãos que você sente te segurando e puxando para baixo são as suas próprias mãos. Disseram que o tempo ia passar e curar toda essa dor. Era mentira. Não importa quantas vezes o sol se pôs, você está presa no seu tempo. Não é passado, porque você não deixa que passe. Seu tempo não quer seguir. Deixe que siga.

Os anos foram chegando em velocidade cada vez maior e você não acreditava que ele resistiria aos invernos. É que ele já foi embora há tanto tempo... Você insiste em mantê-lo presente como se só esta imagem desse conta da vida. E você diz que é fácil falar. Difícil mesmo é te ver sofrer assim. Com esse sorriso congelado no rosto que não expressa nada mais do que um descompasso com o mundo aí fora. Presa no mesmo lugar; estanque. Deixe que flua.

Não há lamento, novo amor, nem Cronos que leve ele daqui. Sorria o seu melhor sorriso; aquele brilho nos olhos como quando você olhava pra ele num domingo a tarde e o sol se punha deixando tudo laranja. Se veste daquela sensação de paz e retoma seus passos. Diga adeus e leve-o até a porta. Ele já foi, agora você é quem precisa deixá-lo ir. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

É não e é sim, tudo junto

Entende? Como eu te disse: é não e é sim, tudo junto. Não é confuso, não é esquisito, é só paradoxal. E a vida é outra coisa além de um constante paradoxo? É que nem sempre dá para juntar todas as partes e resultar em arrumação. Às vezes é bagunça mesmo e eu estou completamente bagunçada de você, dessa dor, desse não-talvez-quem sabe. Desalinho e eu não gosto de linhas. Não gosto dessa reta chata e monótona que você tenta enquadrar nós dois. Porque eu não sou quadrada, não sou formal e não sou fácil. E você não me entende, já sei. E que se dane o entendimento, porque eu não tou falando de explicação e de adequação. É curva, desvio e foi e sumiu.

E eu não quero falar sobre isso, não quero usar metáforas e nem me fazer entender. Quero quando quero e quando não quero não quero e não tenta ler algo além do que tá escrito. Não me teoriza que eu não sou ordenada, não sou coerente e nem generalizável. Não me pede pra me encaixar na sua história, pra agir como seus personagens, pra fazer sentido. Só me encaixo nos seus braços vez ou outra e isso não significa mais do que dois corpos juntos e sintonizados. A frequência muda e não existe tudo igual, sempre igual, mais do mesmo.

Aquilo que você vê é apenas uma interpretação de tudo aquilo que posso ser. E tentar me interpretar com base nas histórias que você ouviu, viveu, pensou vai dar tão certo quanto achar que eu estarei aqui amanhã com a mesma forma que você me viu hoje. É que talvez amanhã eu queira mais do que isso que você me dá, ou seja menos do que você espera. E talvez a gente sintonize de novo e siga tocando juntos que nem aquela música que cantávamos nas tardes de segunda-feira quando tudo era calmo e a gente não precisava disso. Não precisava de explicação, de sentido, de definição.

Quando você não era tão chato, tão certinho, tão preocupado, tão sexy. E quando 1 + 1 podia ser 3 e ninguém se importava, porque matemática nunca foi meu forte e ainda bem que você tava lá. Eu não mudei, só sou outra. E um dos seus maiores erros é achar que dá pra saber o que estou sentindo/pensando/sendo baseado naquela visão que você construiu há tantos anos atrás quando o mundo era mais cor-de-rosa e eu era só uma romântica boba esperando príncipe no cavalo branco. É que depois que eu cai do cavalo de cara no chão, montar e seguir galopando não era mais tão fácil. E eu aprendi que o príncipe é chato e que prefiro o sapo, ou o cavalo preto, ou você quando não me pergunta o que quero.

Então não, não acho que você é meu príncipe encantando; não acredito mais no amor. Acredito no amar. E amar não é estanque e nem se prende ao tempo. É ação infinitiva que não se quer infinita e que acaba, muda, transforma, desforma. E quando sai da forma torna-se uma força potente que arrasta e leva tudo que está rondando por aí sem raízes. E me arrasta direto pra sua cama, pros seus braços, pro até logo está tarde preciso ir embora. 

domingo, 13 de outubro de 2013

Cansei

Eu cansei das mensagens não respondidas, das chamadas não atendidas, das noites mal dormidas. Eu cansei de quase, talvez, amanhã, melhor não. Cansei dos seus amigos, do seu cigarro, do seu beijo. Dessas meias palavras não ditas, da comida que está quase fria, da espera por uma volta do relógio que eu não sei qual. Cansei dos seus vícios, dos seus olhos e do seu carinho.

Cansei desse já estou indo não vou mais me espera que estou chegando dessa falta de vírgulas que me deixa sem tempo para respirar no meio dessa turbulência que é a sua presença ausente. E, cansei, das, pausas, que, você, faz, entre, o, vir, e, o, não, vir, enquanto, eu, te, espero.

Cansei do seu cansaço porque trabalhou muito durante a semana e da sua disposição que te tira da cama antes mesmo que o sol possa nascer. Cansei do só amigos e do pode deixar que eu te ligo. Cansei de estar cansada, do que me cansa e de só pensar em você.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Iminência padecente

Está mais quente e não foi o tempo que mudou. Tá certo que o verão vem pouco a pouco anunciando sua chegada, mas não é o sol quem está me esquentando. Eu estou me afogando e não é no mar. Só peço que me deixem. Parem com essa ideia de jogar boia, chamar salva-vidas, helicóptero. Eu estou descendo cada vez mais fundo e é exatamente o que quero fazer.

Eu passo por aí e me perguntam em que planeta estou. Eu não sei se eles entenderiam, mas em tudo que dizem eu só ouço sua voz. E a cada olhar eu me desloco pros seus olhos cor-de-mel e me pego pensando em tudo aquilo que a gente poderia ser. E basta você dizer sim.

Não me importa mais quantas vezes meu coração foi partido ou quanto tempo levou tempo pra reconstruí-lo. Eu só juntei os caquinhos para que ele voltasse àquela mesma forma de antes: iminência padecente. Porque só se parte um coração que já bateu mais forte. E o meu está me dando murros cada vez que você me vem. É só você me sorrir que eu vou. 



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pra você saber a falta que sinto

E você foi. Foi mesmo, achei que não ia. Achei que era brincadeira, exagero, meia-verdade; que quando você chegasse lá e não visse meu sorriso de braços abertos esperando por você, voltaria. Mas não voltou. E eu fiquei aqui esperando. Esperando para (re)viver todos os momentos bons - e por que não os ruins? - com você. E o meu riso foi brochando aos poucos, porque o relógio deu milhares de voltas e nenhuma trouxe você. 

Eu peguei o telefone e disquei o seu número várias vezes, mas só de pensar na sua voz sem timbre nenhum de dor, desisti. E se de repente isso tudo fosse real? E se de repente você foi embora de verdade para nunca mais voltar? É que eu ainda tinha tantos planos pra gente, tantas expectativas futuras que ainda não podia ser a hora certa de acabar. E você acabou. Acabou comigo e com tudo aquilo que achei que era.

Eu me perdi: de mim, de você, do mundo. Porque todas as certezas que tinha só eram certezas porque você me sorria com os olhos dizendo que era isso mesmo e que eu seguisse adiante. É que o meu coração batia mais forte toda vez que você me abraçava e dizia que não iria a lugar algum que eu não estivesse.

E eu sinto falta. Sinto falta dos movimentos que nossos corpos descreviam com tanta - ou nenhuma - precisão. Falta daquilo que me excedia e me transbordava. Falta do seu sorriso tímido de manhã cedo vendo o esforço que era para eu acordar. Eu sinto saudade de qualquer coisa que tivesse você.

E você foi. Foi mesmo e não olhou pra trás. Levou o seu coração e eu fiquei aqui de mãos vazias e completamente cheia da sua ausência que me fez repensar a vida inteira. E as minhas esperanças escaparam de mim da mesma forma que essas palavras tentam dizer como eu queria que você estivesse aqui.

domingo, 1 de setembro de 2013

Mente que mente

Senta aqui do meu lado e observa comigo. Está vendo a forma como ele olha pra ela? Ela jura para todos que não percebe, que são só amigos e que ninguém sente nada mais do que isso. Na verdade, ela acredita mesmo no que diz. Mas você vê? É aquele olhar profundo com um sorriso de canto de boca. Está escuro e parece que a cada mecha de cabelo que ela coloca pra trás da orelha os olhos deles iluminam essa sala. Talvez ele não perceba também, o corpo tem dessas coisas de falar mais do que a voz consegue, mais do que a mente percebe. Eu percebo, e você?

Repara o jeito como ela toca as mãos dele com frequência. Parece que todas as brincadeiras tem que envolver o toque de alguma maneira. Você viu a forma como ela contraiu as mãos quando outra mulher chegou perto dele? Não era um simples estalar de dedos ou coisa parecida. Vontade de avançar e dizer "sai de perto que ele é meu".

"Não há nada entre nós, não fala besteira!", é a resposta padrão de ambas as partes. Medo de estragar aquilo que parece estar bom, medo de não ser recíproco, ou, quem sabe, apenas ingenuidade da mente. Porque racionalização de afeto causa confusão, incerteza, erros. É essa mania que as pessoas têm de entender o que sentem, quanta bobagem! 

Hoje eles vão sair juntos daqui. Ele vai levar ela em casa, abraçar apertado e dizer boa noite. Depois vai seguir um outro caminho torto qualquer. Ela vai subir as escadas, tomar banho, tirar a maquiagem e dormir. Acordará de um sonho com ele e fingirá que não entendeu. E assim vão os dois, mascarando tudo aquilo que vibra pedindo passagem. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Ciência inexata

Fica mais um pouco que eu não quero perder aquilo que ainda não aconteceu. Deita aqui no meu peito e deixa eu te fazer um carinho; sente meus dedos nos seus cabelos, lábios, orelhas. Percebe eles dizendo que não querem que você vá? Já ensaiei uma forma de te dizer que ao meu lado é melhor do que ao das outras, mas na hora de falar as palavras fogem e escorrem para fora do meu corpo levando você junto.

Eu sei que você avisou desde o começo que na hora certa você iria embora, mas eu não quero que essa hora seja agora, nem depois, nem nunca. Eu prometi aquilo que não posso cumprir. É que seus olhos dizem pra mim que por trás de toda essa máscara existe alguém que quer ficar. Alguém que vai chegar em casa e se arrepender de todas as vezes que foi embora da minha cama e de todas aquelas que pediram para ficar um pouco mais. 

Meu coração já foi partido em milhões de pedaços assim como o seu e eu queria poder te dizer que sei a forma perfeita de consertar, juntar os caquinhos, botar para bater de novo com um espacinho reservado para me colocar dentro. É que eu sempre fui péssima nessa coisa de aplicar a teoria e cometo todos os erros na hora de tornar real aquilo que tem tudo para dar certo. Aceita meus erros e diz que isso aqui não é prova de matemática. Dois menos um pode continuar a ser dois, porque já passou sua hora e você ainda está aqui do meu lado.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Futuro do pretérito

Achava que depois daquele beijo tudo seria diferente; depois daquele instante de silêncio misturado com suor gelado e sangue fervendo, seus olhos me diriam mais do que sua boca. Achava que depois dos arrepios na pele, do gozo e da noite, nossos corações seguiriam em uma melodia outra. E os pássaros cantariam mais alto que os pneus dos ônibus quando o sol surgisse atrás do nada para anunciar mais do mesmo. Achava que depois da respiração curta, nossas mãos se entrelaçariam com um tom de eternidade.

Achava que bastaria aquela troca de olhares para que ela se tornasse pretérito, esquecido, indolor. E depois que eu me encaixasse perfeitamente entre seus braços, ele seria apenas uma lembrança vazia. Vazia de qualquer coisa que me fizesse pensar duas vezes e achar que nada mais seria igual. Depois de uma noite inteira, eu achava que os nossos corações dormiriam juntos e acordariam loucos de vontade para começar uma história inteiramente nova. E quando você fosse embora o estômago iria embrulhar só de pensar em ficar distante. 

Eu achava que todos aqueles sonhos significavam alguma coisa. E sua forma de olhar era sinal claro de que eu havia encontrado a solução. De repente meus problemas pareceriam desaparecer e eu ganharia alta da terapia e economizaria para fazermos aquela viagem juntos. 

E quando a noite acabou eu só escutava os ônibus em alta velocidade correndo na rua ainda deserta preenchida apenas do sono de quem levantou cedo para trabalhar. E seus braços ao redor do meu corpo tinham o mesmo peso que tinham antes. Seu olhar continuava o mesmo, lindo, mas distante. Achei, então, que eu é que não estava sabendo interpretar aqueles sinais tão claros de par perfeito. Ai, o telefone tocou e você atendeu. Pude escutar a voz chorosa que te pedia para voltar pra casa. E meus dedos escorregaram dos seus e correram para meus olhos. Nenhuma lágrima escorria e o coração batia exatamente no mesmo descompasso de antes.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Irracional

Peço desculpas por isso, mas tenho que ir. Não é que você não seja um cara legal, ou que não tenhamos afinidades. Não tenho como negar que nossa afinidade sexual vai além da maioria das minhas experiências. Eu gosto do jeito que você me olha e do jeito que você fala coisas bonitas no meu ouvido. Não adianta ficar buscando erros em nós para justificar minha partida. 

Não pense que não dói esse seu olhar de quem daria - quase - tudo para que as coisas fossem diferentes, ou suas ligações de madrugada com voz de Stella Artois me pedindo para repensar. Eu repensei, juro. Avaliei os prós e contras e, confesso, existem mesmo muito mais prós nessa história. Só que não é uma questão de avaliação, entende?

Eu preciso ir e talvez você ache que sou insensível. Não sei se sou, mas acho que esse é o ponto. Somos ótimos juntos, mesmo. Só que eu não sinto nada. E preciso dizer que nossa última noite foi maravilhosa, mas seus beijos no pescoço foram subindo para o ouvido e poderiam ter se mantido assim: beijos. É que quando você disse "eu te amo" eu senti vontade de correr. 

Se for mais fácil para você, pode acreditar que estou indo embora por medo de ser feliz. Acho que é isso que grande parte das pessoas faz, não é? E pode usar minhas lágrimas para justificar sua teoria, se isso lhe convém. Entretanto, devo dizer que são lágrimas de tristeza, não por ir embora, mas por perceber que a razão não sabe falar de amor.

Queria eu que palavras bonitas ganhassem vida no momento que saíssem da boca. Não seria lindo? Eu diria que também te amo e, de repente, seria verdade. Em alguns anos eu estaria toda vestida de branco com aliança no anelar esquerdo. Não, as palavras não têm essa potência. Não há como negar que, por vezes, elas podem transmitir sentimentos maravilhosamente bem; mas elas apenas transmitem, não criam.

Esquece essa história de pensar sobre nós. Eu já pensei muito. Aliás, só chegamos até aqui porque pensei demais. Se não o tivesse feito, não teria retornado a ligação para o-cara-que-não-me-lembro-o-nome-pois-estava-muito-bêbada. 

Eu tenho mesmo que ir. Meu ônibus vai parar de passar, estou sem dinheiro pro táxi e não quero que você me leve em casa. Sei que o que te magoa não são minhas palavras, mas a falta de arrepios na minha pele, independente da sua proximidade. Eu cederia aos seus pedidos e dormiria com você essa noite, mas não tenho vocação para destruir corações. Olha meus olhos: estão vazios. Preciso mesmo dizer mais alguma coisa?

Desculpa, mas eu tenho mesmo que ir.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Retrato

Acordaram, então, com o sol penetrando seus olhos a fundo. Abraçaram-se forte sem dizer nada. Era hora, eles sabiam. Os pássaros cantavam como fazem todos os dias quando a lua sai de cena dando lugar ao astro-rei. Por um breve momento ficaram parados no mesmo lugar ouvindo apenas o som da respiração. O ar entrava de uma vez no pulmão e saia em pausas: anúncio de dor.

Com alguma dificuldade levantaram, recolheram as roupas jogadas e fecharam as malas. Entre uma dobrada de roupa e um esbarrão pelo quarto, trocavam olhares que diziam mais do que qualquer som que pudessem emitir. Fecharam as portas e foram embora. Não trocaram uma palavra sequer durante todo o caminho. "Adeus" doeria demais, "até logo" seria ilusão e "vamos falar sobre isso" seria uma tentativa falha de tornar razão aquilo que nunca poderia ser categorizado como tal. Era sentimento vivo e pulsante. Tão fluído que escorria pelas mãos de quem tentasse torná-lo palpável.

O que seria a vida senão uma junção de momentos? Alguns mais duradouros - cronologicamente - e outros menos. Por que é que julgamos os breves momentos menos importantes? Por que é que, tantas vezes, admitimos a ausência de repetição como prova de experiência falha? Não era assim que pensavam. Ao contrário, entendiam que não haveria maior tempo-espaço para o outro em suas vidas. E o clichê que ressalta a intensidade e não o tempo parecia encaixar-se perfeitamente. E quanto mais aproximava-se a hora da despedida, mais o coração apertava e a respiração acelerava. Era dor de partida. Dor de sentir o presente virando lembrança. Não era vontade de fazer diferente, mas prova da importância que aquele momento tivera. 

O silêncio total foi quebrado no momento da despedida. Entre abraços carinhosos, beijos sinceros e lágrimas discretas o som saiu da boca cuidadosamente "obrigado". Era a única palavra que cabia. Gratidão por terem deixado acontecer, por terem apreciado, por terem vivido. Gratidão por não ter havido tentativa de tornar aquilo algo que não era. 

Seguiram cada um o seu destino e, devo dizer, sem arrependimento. Encontraram amores que duraram no tempo-espaço. Construíram famílias. Apaixonaram-se por uma profissão. Passaram por momentos breves e não tão breves assim. E a lembrança do outro sempre vinha acompanhada de uma emoção sem fim e da certeza de que aquele fora um dos mais bonitos momentos de suas vidas. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Conselhos para ela

Cuida dele, ok? Ele gosta de dormir com dois travesseiros, um alto na cabeça e outro entre as pernas, entre os braços vai você; e tenha certeza de que seu corpo está bem quentinho, ele costuma se assustar com pés gelados que tocam a perna no meio da madrugada. Sexo matinal é essencial e você vai ver como isso melhora a relação. Não esquece de usar uma lingerie de vez em quando, dá uma apimentada e ele fica louco, principalmente com as vermelhas. Maquiagem é dispensável, ele gosta de ver a gente natural, mas um batom vermelho em uma sexta-feira à noite pode cair bem.

Deixa o cabelo solto. Ele adora quando caí uma mecha de cabelo perto do olho e com as mãos coloca atrás da orelha e percebe os olhos bem de perto. Isso costuma resultar em beijo, beijo demorado e com muito carinho. Aliás, o carinho que ele faz é o mais gostoso que já recebi. Fica atenta, dispensar alguns compromissos para passar a tarde deitada sem nada para fazer, apenas ouvindo uma boa música e recebendo um bom cafuné é uma das melhores trocas que você pode fazer. Não tem como se arrepender.

Pode comer chocolate a vontade quando tiver de TPM. Esse costuma ser o sinal para ele saber que deve evitar assuntos delicados ou qualquer comportamento fora do normal. Tira umas tardes para conversar com a mãe dele. Ele adora ver a mãe se divertindo e ela é fã de um bom papo. Com certeza a recompensa a noite será espetacular.

Tenta lembrar de tirar os fios de cabelo que ficam no ralo do banheiro, é uma das poucas coisas que o irrita facilmente. Depois de um tempo você se acostuma e vira hábito, você vai ver. Respeita o videogame. Não precisa ser todo dia, mas vez ou outra com os amigos é indispensável. Aproveita e vai encontrar suas amigas, nada mais importante do que manter laços fora dessa relação: fortalece. 

Ele não é daqueles homens machistas que acham que mulher tem que cozinhar não. Mas um jantarzinho de vez em quando alegra a semana dele. Se não souber cozinhar, tudo bem, ele é um cozinheiro de mão cheia e pode te ensinar algumas coisas. Seja uma boa aluna, ele adora se sentir capaz de ensinar algo à alguém.

Dê livros no aniversário, não há presente no mundo que ele goste mais. Aliás, respeite os momentos de leitura dele. Conselho: pegue um livro e leia junto. Você vai ficar impressionada como os livros não se acumularão mais na cabeceira. 

Beijo no pescoço. Nada excita mais ele do que um bom beijo no pescoço que sobe para as orelhas e acaba na cama. Não deixa o sexo cair na rotina, ele gosta de te agradar e vai ser fácil inovar. De fato ele faz coisas incríveis que você nunca poderia imaginar serem possíveis.

Acredita nas palavras dele, às vezes parece bobagem, mas ele é sempre sincero. Não se espanta com a timidez e com a dificuldade de dizer algumas palavras doces. Ele se esforça extremamente para demonstrar tudo isso que eu sou melhor em fazer com palavras. Tenta entender o jeito dele: é diferente da maioria. Se estiver confusa, apenas feche os olhos e sinta: a respiração fala por ele. O mais importante: dá amor pra ele. Eu parei de dar e foi assim que ele te conheceu.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Linhas tortas

Eu ouvi seus passos na calada da noite. Aquele andar tímido de quem não quer ter presença notada tentando passar despercebido. Eu ouvi sua voz que chamava meu nome para dizer que me queria por perto: desnecessário o movimento dos lábios ou a vibração das cordas vocais. Eu senti seu coração tocando meus peitos e batendo quase como código morse para dizer aquilo que você não disse antes de ir embora. Li nos seus olhos e no seu jeito de pegar minha mão que aquilo era muito mais do que estava nas linhas corridas que compunham o nosso roteiro.

Senti medo; de ser coisa da minha cabeça; de fantasia de carnaval que levanta o povo na avenida e passa destruída no final. Podia ser delírio e as cores iriam embora e ficaria tudo preto no branco. Tudo assim, sem graça e exatamente como está. Carinho daqueles que machucam por serem apenas carinho e nada mais. 

Aí eu fiquei. Fiquei aqui mesmo, parada no mesmo lugar. Amando você em todos os cantos da casa enquanto dormia estagnada no meu cantinho somente. É que se eu colocasse minhas palavras nos seus ouvidos elas poderiam soar estranhas... poderiam parecer reais. E tive receio de que você me confirmasse que ando viajando mais do que aquele dia que você tomou ácido e pediu para eu te buscar porque estava com medo das cores brilhantes que te perseguiam. Você dormiu na minha cama e parecia que ela tinha sido feita para você.

É que eu tive medo de que os esbarrões que você me deu não fossem nada além deles mesmos e que toda prosa que escrevi pensando em nós ficasse ali no papel. E se as palavras escritas fossem o mais bonito de nós dois? E se as letras fossem só letras e nada mais?

Lembra daquele outro dia que a noite terminou com você segurando meu cabelo na beira da privada? Era pra ter sido o momento perfeito. Eu bebi um pouco só para te contar como é que a gente ia se beijar e ficar juntos a vida inteira. Aí eu passei da conta porque você estava bonito demais e seus olhos ficaram quase verdes no sol. E a cabeça doía tanto no dia seguinte que o analgésico não fazia efeito. Prometi que amanhã seria diferente.

Eu tô tomando coragem, juro, e é sem álcool nenhum para não dar vexame de novo. É que a forma como você me carregou pra casa pseudo-desmaiada, me colocou na cama e beijou minha testa talvez tenha sido um pouco mais do que um gesto de amizade, ou não. Mas o que está me movendo mesmo é que acho que você vale mais do que o meu medo. É que você merece minha coragem, meu afeto e minha sinceridade; merece o melhor de mim.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um motivo para não ir embora

Eu não sei se é a forma como você me olha nos olhos quando diz que me ama, ou como não resiste aos meus beijos no pescoço. Talvez seja a maneira como, imersos no silêncio, me deito em você e sinto nossos corações batendo em sintonia ímpar; o seu sorriso tímido e a forma como olha para baixo quando te faço um elogio; o fato de não me deixar dormir brigada com você, pois não suportaria a ideia de fechar os olhos e não poder focar nas minhas curvas e somente nelas. Quem sabe não é a forma como minhas mãos se entrelaçam nas suas e se comunicam sem precisar de auxílio algum da consciência? 

De repente são seus músculos que abrigam movimento e me sustentam tantas vezes, de tantas formas, em tantos lugares. Ou o seu sustento emocional mesmo: como tenta apagar as minhas lágrimas com frases estúpidas e como meu sorriso falso é o sinal perfeito para te fazer esquecer as palavras e me abraçar como só você sabe. Eu acho que é como você mexe a boca respirando fundo - e discreto - quando quer chorar e se controla para não demostrar seu lado frágil, nem quando sou áspera. Ou será que é quando suas lágrimas escorregam pelo rosto como carro sem freio na serra em dia de chuva?

Talvez seja o som que você faz ao acordar como quem espreguiça as cordas vocais junto com o resto do corpo. Ou a forma boba como fazemos caretas e achamos graça de tudo como se fossemos duas crianças. De repente é a inocência do seu olhar, ou a malícia de suas mãos; as noites espremidos na parede como se não tivéssemos a cama inteira só para nós. Pode ser porque você conhece todas as minhas expressões e não consigo esconder de você nem as surpresas de aniversário.

Eu não sei, mas pode ser que seja pela camisa da sua banda preferida que já me serviu de pijama tantas noites, ou pelos seus olhos quando me vêem usando somente ela e nada mais. Acho que é pela dor que sinto no abdômen cada vez que me faz rir até não saber mais o motivo. Ou pelo sua falta de jeito para dançar - que você cisma em dizer que me envergonha. E como você se afeta quando me despeja suas palavras amargas, difíceis de engolir sem fazer careta, que fogem de um dia estressado ou de uma besteira impensada que fiz. Talvez seja somente pelo que você desperta em mim. Ou porque, se eu for, tudo isso será lembrança e nada mais. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Em uma esquina qualquer

Andava distraída. Não como costumam entender por aí o andar distraído de quem não presta atenção em sinais, placas, postes e gente. Pelo contrário, todos os obstáculos eram devidamente encarados e percebidos; todos os olhares incorporados. Não é dessa distração que falo. Eu estava mesmo era andando distraída de mim. De repente tudo que estava fora passou a ser interessante. Nunca havia reparado quantas cores o céu pode ter, ou quantas roupas iguais existem por aí. Descobri detalhes dos lugares pelos quais sempre passei e nunca enxerguei. Tudo me parecia mais interessante do que meus pensamentos, sentimentos, sensações... qualquer coisa que me afastasse daquilo que parecia gritar dentro de mim.

Em um domingo, em uma esquina qualquer, com o dia cor de laranja e aroma de primavera misturado com gás carbônico, eu vi de longe tudo aquilo que quis evitar. E, na verdade, pouco importa a data, a cor, o cheiro, ou o gosto que tinha aquele dia; me lembrei apenas do cheiro que tinha o seu suor misturado com o meu, o gosto da sua pele macia, a cor inconfundível dos seus olhos me olhando como quem nunca está satisfeito e precisa continuar ali. De repente meus pensamentos, há tanto calados, gritaram tão alto que me espantei em ser a única a ouvir. O coração sambava mais que passista na apoteose ao som dos bumbos e das cuícas. 

Aprendi nas aulas de biologia aquela tal história de "luta e fuga" e parecia que meu corpo se preparava para correr dali em velocidade de maratonista com anos de treinamento. A respiração ficou ofegante e podia sentir o calor que vinha de dentro em um dia de temperatura amena no Rio de Janeiro. Senti a dor acumulada no peso que tinha uma pequena lágrima que se apossou do meu olho esquerdo e rolou rosto abaixo até tocar meus lábios com gostinho de sal. Lembrei-me de como você tocava meus lábios com suavidade e carinho de uma forma tão única que nunca mais senti igual.

As palavras não davam conta do momento e, das diversas formas possíveis de se pensar, os meus pensamentos sempre me vêm em palavras. Tem gente que vê imagens, escuta sons... os meus são palavras claras, corridas, atropeladas e, muitas vezes, sem pontuação. Sempre tudo explicado, por vezes até demais. E naquele instante eu não ouvia fonemas e não via letras. E, por mais que buscasse uma compreensão, meu pensamento estava apossado de um mutismo sem fim.

Não me lembro bem o que fiz naquele momento, com um certo esforço consigo refazer alguns de meus passos. Acho que dei meia volta e ameacei trocar de calçada, mas quando percebi estava bem diante de você e não sabia o que dizer/fazer/pensar/sentir ou ser. Não sabia mais o que me fazia eu e não você e nem eu e você. Não compreendia os passos que me levaram até ali - e não digo ao seu encontro, mas ao nosso desencontro que se deu há tanto tempo atrás. E acho que parte da minha confusão mental transferiu-se para você, que me olhou com olhar perdido e completamente vazio de sentido.

Reparei que o laranja do céu estava escurecendo e ficando cada vez mais cinza - talvez fosse princípio de chuva, ou só a noite chegando - e as pessoas continuavam a passar no mesmo ritmo. Parecia um descompasso gigante do meu ritmo com o dos outros, do seu, do céu. E foi dentro do seu abraço que fui recuperando algum sentido que me faltava. Quando nossas bocas ameaçaram se encontrar de novo que eu pude entender o que há tempos me fugia da consciência.

Meus lábios tocaram suas bochechas e recuperei as palavras. Pude te dizer um adeus/até logo que não soou muito bem para você e acho que para ninguém além de mim. E alguns quarteirões depois eu tropecei. Ralei o joelho e rasguei a roupa. Sangrei. Estava desperta, vigilante, atenta. As cores se confundiram e eu voltei a me perder por aí. Pude recuperar aquilo que me faltava: meu jeito desajeitado.


domingo, 9 de junho de 2013

Eu e o mundo

Eu perdi as contas das vezes que disse que estava bem, feliz e vivendo exatamente do jeito que queria viver. Aquele papo todo de pessoa pseudo bem-resolvida que finge que o mundo não influencia na maneira como se veste, pensa, sente. É que o mundo é tão externo e particular. Não o conheço o suficiente para saber como é que meu pé vai marcar o chão e, menos ainda, como é que ele vai me marcar. Quer solução melhor do que dizer - e acreditar - que está tudo bem, tudo no lugar que deveria estar? Contar mentira do pior tipo: daquelas que a gente acredita e repassa por ai. 

É que quanto mais "não" o mundo disse pra mim mais "não" eu quis dizer pra ele. E eu acreditei que poderia competir com tudo aquilo que me é externo, aquilo que não controlo. Achei que poderia me diferenciar de tudo aquilo que está de fora. E como éramos duas entidades distintas eu pediria a separação e cada um seguiria sua vida independente, traçaria o seu próprio caminho e não olharíamos para trás.

Foi no meio dessa ilusão tão concreta que eu encontrei você. E de repente eu não queria mais ser distante de tudo, se tudo incluía você. Eu liguei pro mundo e pedi para ele me perdoar, para a gente fazer as pazes. É que quando eu olhei nos seus olhos percebi que o mundo me atravessava, que eu fazia parte dele e ele de mim. Só eu sei o esforço que foi para admitir que talvez eu não fosse assim, tão bem resolvida, e que eu queria que algumas coisas fossem diferentes e, sozinha, eu não estava dando conta de transformá-las.

Agora eu estou aqui, diante de você, dizendo para que você deixe que o seu mundo se entrelace com o meu  e te convidando para fazer parte de mim. Eu sei que nossos caminhos aparentam ser linhas paralelas correndo para lados opostos, e que eu não sou exatamente aquilo que você pensou encontrar em uma mulher e que, aliás, nesse momento você não pretende nem estar acompanhado para dormir ou ir jantar. 

Eu sei que não li nem metade dos livros que você leu, que meus hábitos noturnos divergem quase que completamente dos seus, não consigo te acompanhar na cerveja e odeio aqueles lugares que você costuma ir. É que quando eu liguei pro mundo, ele me contou um segredo: disse que não podia deixar você escapar e que, na realidade, duas paralelas podem se cruzar em uma esquina qualquer. Nós não fomos feitos um para o outro e é exatamente isso que me encanta em você. 

domingo, 26 de maio de 2013

Cegueira

Escrevo para dar uma aula para o seu olhar. Avisa para ele que está fazendo tudo errado. De onde veio a ideia de que se olha apenas para frente ou para trás? Como é que ainda não percebeu que todos os lugares que vai são errados. É culpa dele, somente dele, os arranhões que você ganhou no peito. Quantas vezes já não vi você cair lá do alto e tive que correr? Correr para te socorrer.

Tantas vezes você diz que eu sou a melhor e que sem mim você não seria o mesmo. Acho que seu peito entende, sua mente também, então, explica para o seu olhar... explica pra ele que procurar demais não implica em encontrar o encaixe perfeito. Explica que a função dele é enxergar, ver, perceber! E não ficar nessa busca infinita por algo que não se acha. 

Coloca ele em recuperação, de castigo, reprova. Se você quiser, abandona em uma esquina qualquer e nem precisa pensar duas vezes, eu empresto o meu e, quem sabe assim, você não vê o que ele tem evitado. Não gosto de ofensas, mas seu olhar é burro. Será que sou só eu que percebo que ele sempre volta pro mesmo lugar? Não importa que mude a forma, as cores, o som... ele continua estagnado no mesmo peito sem futuro e sem carinho.

Deixa que eu mostro para ele que existe um lugar melhor. Existe uma vista agradável que vai fazer com que ele pare de procurar. Fecha os olhos e respira. Quem sabe assim você não deixa seus outros sentidos te mostrarem o que está mais do que claro, mais do que óbvio. A verdade é que só você não percebe. Muda essas lentes que estão desfiguradas. Joga um colírio, lava os óculos...

Eu estou aqui onde sempre estive e só seus olhos não viram ainda. Só eles não repararam que sou sempre eu quem enxuga suas lágrimas e te abraça quando o mundo parece desabar. Só eles que não perceberam que eu mudo meu caminho, meus hábitos, minhas palavras, minhas cores, minhas formas, minhas forças para que eles me percebam de uma vez. Avisa para eles que está na hora de parar de procurar e encontrar. Deixa o mundo escurecer, os cílios se encontrarem, fica cego. Olha pro lado. Olha pra mim. 

domingo, 19 de maio de 2013

Ponto morto

Estava tudo bem. Eu não me importava - até achava bom - em tomar meu café sozinho todas as manhãs, fazer meu próprio nó na gravata e sair de casa sem ninguém para desejar bom dia. Trabalhar, malhar, comer, assistir filme, ler um bom livro e me esparramar na cama inteira só pra mim, estava gostoso. Há quem amaldiçoe a rotina que julga tão entediante, eu não. Eu estava curtindo essa nova maneira de ser dono de mim, não calcular danos e fazer o que dá na telha.

Eu estava jantando em casa e não era ovo frito. Aprendi a fazer as receitas mais inusitadas que nunca havia pensado em fazer. E dá para acreditar se eu disser que li todos aqueles livros que eu vivia postergando? Gostei de alguns. Pintei a parede do meu quarto de azul como eu sempre quis e a cor caiu perfeitamente: parecia que eu estava imerso em uma maré de calmaria.

Estava tudo tão meu: controlei todos os passos que dei. Comecei a fazer terapia porque me falaram que eu me sentiria melhor, e eu gostei. Eu comi o que quis, vesti o que quis, acordei e dormi quando eu quis, fui aonde quis. Acho que pela primeira vez eu não tive que me contrariar e estava bom assim.

Ai eu encontrei o seu olhar e ele me sorriu. Quando me dei por mim, estava olhando para frente, para os lados, para trás: para fora. Acordar não tinha mais o mesmo ritmo, dormir levava muito mais tempo, até o cardápio sofreu alterações. E eu perdi o controle. 

Eu passei a te querer e nem sabia o que fazer. E nada estava bem. O meu movimento passou a se confundir com a maneira como você mexe no seu cabelo, o timbre da minha voz ajustou-se aos tons claros que você veste todos os dias, os meus passos caminharam para onde você estava.

Foi quando o seu olhar me encontrou e eu sorri para ele. Pintamos a parede de amarelo, os livros acumularam-se na escrivaninha e fiquei só com meia cama. Não faço mais  tudo que quero e o tempo não é só meu.

Está tudo melhor.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Se você me quer, me queira

Se você me quer mesmo, então pára de bancar a boba e dizer que eu estou entendendo tudo errado. Esquece o que os outros vão pensar, dizer, ou como vão nos olhar. O que está de fora, pouco importa. Quantos beijos já quis te roubar e tive que esperar pelo momento certo? Qual é esse momento que você tanto fala? Devo esperar dias, meses, anos... ou nunca chegará?

Se você sente mesmo tudo isso aí que você diz para suas amigas, por que ainda restam dúvidas? O jeito que você olha no fundo dos meus olhos e toca minhas mãos com tato de seda... deixa espaço para algo além de certeza? Qual é o sinal que você tanto espera para saber se eu sou confiável ou não? O que tenho que fazer para você perceber que aqui só existe um coração que está inteiramente preenchido por você?

Se você se importa comigo nessa escala, se diz que quer me ver feliz a todo momento, que não entende o mau que as outras puderam me fazer, por que você não vem logo e faz o meu bem todos os dias? Como posso provar para você que eu não sou como ele? Se eu tivesse como dar uma espiada no futuro e tirar umas fotos, traria pra você a prova de que o nosso amor deu certo. Será que é tão difícil assim acreditar nas minhas palavras?

Eu deveria te trazer flores? Aprender a sua música preferida no violão? Escrever cartas de amor? Fazer declarações em público? Eu juro que tento aflorar esse meu lado romântico, mas quando estou diante dos seus olhos verdes eu esqueço tudo aquilo que havia planejado falar, eu perco o sentido das palavras e a única coisa que consigo fazer é te olhar. Dizem que os olhos são a janela d'alma. Você já tentou olhar para os meus e ver, como apesar de pretos, são transparentes?

Outro dia meus amigos me disseram que o que mulher gosta mesmo é de ser pisada. De onde tiraria coragem para colocar esses pés tamanho 43 por cima de tão adorável criatura? Esqueçamos essas bobagens de regra de jogo, de expectativa social e vivamos, meu bem. Abandona essas suas cismas sem sentido e chega aqui mais perto, me abraça com vontade - do jeito que você sabe fazer - e diz que nada mais importa.

terça-feira, 7 de maio de 2013

(In)Certeza

Todas as relações chegam ao fim. Nunca duvidaram disso. No entanto, essa premissa não permitiu que a dor diminuísse quando resolveram se afastar. Seria melhor assim. Melhor para todos. Como continuar em uma relação cheia de brigas? "Não está dando certo". E com essas frases feitas e clichês - presente em (quase) todos os fins de relacionamentos - terminaram aquilo que um dia chamaram amor.

Ele foi viajar. Tinha férias acumuladas e um destino sonhado: Las Vegas. Foi ao cassino, perdeu, ganhou, bebeu. Relacionou-se com algumas mulheres. Tirou fotos. Retornou para sua vida com a certeza de que as coisas estavam exatamente como deviam ser. A rotina consumia seus pensamentos e não sobrava tempo para pensar na ausência dela.

Ela ficou em casa mesmo. Colocou um tubinho preto e saiu para dançar. Conheceu muitos caras, transou com alguns, chegou a ter mais do que primeiros encontros com outros. Trocou a cama de lugar e comprou novos lençóis. Acordava todos os dias de manhã, lavava o rosto e repetia para o espelho "foi melhor assim".

Passaram-se dias, meses, anos. A lembrança foi ficando cada vez mais distante. As lágrimas cessaram e deram lugar a novos sorrisos. Conheceram novas pessoas, apaixonaram-se. Caminharam cada qual pelo seu caminho e não olharam para trás nenhuma vez. A certeza de ter feito a coisa certa cristalizou-se e tornou-se tão verdade quanto a ideia de Deus.

Ela casou-se com um namorado dos tempos de escola. Exatamente aquele que ele sempre sentiu ciúmes. A vida as vezes apronta essas peças. Encontrou o amor onde nunca imaginou que poderia estar. Nunca tiveram filhos. Viajavam pelo mundo e saiam em capas de revista. 

Ele teve um filho. O casamento não deu certo e quando o menino completou 5 anos, separaram-se. A mãe mudou-se para outra cidade levando a criança. Sempre que podia o filho vinha passar férias com o pai. Doía. Era distância de verdade, física, medida em quilômetros.  Ele sentia falta. 

Um dia, correndo para o seu compromisso, ela tropeçou na rua, quebrou o salto. Correu para o shopping mais perto para comprar um novo sapato. Ele não tinha conseguido parar para almoçar e resolveu ir ao shopping fazer um lanche antes de voltar para o trabalho. Precisava concluir suas tarefas para sair mais cedo e arrumar a casa para visita de seu garoto.

Depois de tanto tempo, encontraram-se. Por mais de um minuto permaneceram em silêncio apenas olhando no fundo dos olhos do outro. Enquanto olhavam-se, passava pela cabeça dela os momentos mais incríveis que haviam vivido. Lembrou-se das noites de frio do lado do cobertor, dos passeios na rua de mãos dadas, do gosto de café no beijo matinal. Ele recordava-se daquele olhar, nunca poderia esquecer. Não era porque os olhos eram azuis e bem desenhados, mas transmitiam clareza e sinceridade. 

De sua boca saíram palavras não pensadas e quase vomitadas "Por que mesmo que a gente terminou?". Ela respirou fundo e tentou iniciar a frase algumas vezes. Aquelas palavras pareciam impronunciáveis. Depois de um breve momento conseguiu responder "porque seria melhor assim". Ele mostrou foto do filho no celular e ela contou que havia casado com o cara da escola. Trocaram meia dúzias de vocábulos vazios de sentido. Despediram-se e voltaram para suas vidas.

Naquela noite, depois do banho, antes de dormir, lembraram do encontro que haviam tido, não no shopping, mas na vida. Buscavam em suas lembranças as brigas que tinham, as mágoas causadas, mas nada vinha. Com o tempo todos os pequenos problemas cotidianos pareciam jamais ter existido. O coração batia forte e um nó na garganta trazia um alerta de choro. Em suas cabeças as palavras ecoavam sem parar... Foi melhor assim.

sábado, 4 de maio de 2013

Diamante bruto

Eu admito: não sei lidar com a sua ausência. Eu disse que seria fácil e que você fosse embora rápido porque não queria te ver. O que eu não queria mesmo era voltar atrás e sabia que quando você me olhasse com aqueles olhos de quem foi abandonada e tentasse esconder as lágrimas que escorreriam de seus olhos, eu não conseguiria sustentar essa ideia de ficar sem você. Eu tenho que dizer que me senti como um monstro debaixo da cama de uma criança com medo do escuro quando você me abraçou e pediu para que eu repensasse. Dizer que estava certo e te ver virar as costas com a respiração ofegante de tanta dor, doeu mais do que o dia que fui atropelado.

Neguei - não só à você, mas a qualquer um que me perguntava - a tristeza que me fazia chorar todas as noites. Como é que eu explicaria, em palavras, que mesmo te amando preferia deixar você ir embora? Eu sabia que seria criticado e chamado de idiota (e, vez ou outra, era assim mesmo que me sentia). Tinha certeza que você pediria que desistisse da ideia de ir embora e diria que o amor seria suficiente para nos manter juntos. Seria?

Viver em um campo de batalhas com bombas atômicas que explodiam corações não estava fácil. Cada vez que uma palavra saia de minha boca e te fazia chorar, torcia para que um buraco se abrisse abaixo dos meus pés e eu descesse direto para as profundezas do inferno. Como poderia fazer criatura tão meiga e adorável  sofrer por um ogro que não sabe nada de amor? Eu juro que tentei mudar, melhorar meus modos, mudar meus hábitos, virar um príncipe. Só que nem mil beijos de amor verdadeiro me fizeram deixar de ser um sapo feio e gelado.

Perdi a conta de quantas vezes eu quis te procurar e pedir para voltar pra mim. Quer saber o que me fazia desistir todas as vezes? A certeza de que você voltaria. Eu não podia. Mesmo querendo muito, não poderia prender você à uma história que eu tinha certeza que não passaria de alguns bons momentos estragados pelo meu mau jeito e pelas minhas palavras erradas. Eu sei que, mais cedo ou mais tarde, eu estaria te deixando novamente em casa sozinha enquanto saia para beber e esquecer quem sou. Não, essa tristeza que carrego em meu peito não tem nada a ver com você e me mata saber que você sempre se culpou por isso. 

Não existe nada que você poderia ter feito diferente. Eu não teria ficado se você tivesse entrado para academia; também não teria me prendido você parar de sair com as suas amigas; eu teria mantido minha decisão de te deixar mesmo que você aprendesse a cozinhar minha comida favorita; e se a gente transasse todos os dias, eu também teria partido. Não foram as suas reclamações, nem suas crises bobas de ciúme, muito menos as decisões que você tomou sozinha para o seu futuro.

É que nem todos os seres nascem para amar ou para o amor. Você tem esse seu potencial para conquistar qualquer homem e fazê-lo feliz. Eu sou assim. Uma criatura errante que ainda não aprendeu a amar. Será que alguém algum dia será capaz de me ensinar? Se nem você conseguiu... Meu amor é bruto e continuo procurando uma forma de lapidá-lo. Existe?

Sei que levou tempo até essa dor passar - talvez nem tenha passado completamente -, mas você voltou a sorrir. Eu te vi passando com o seu novo amor. Vi o jeito como ele te olhava e lembrei de como era capaz de olhar para você por horas sem ficar entediado. Reparei o seu sorriso de canto de boca e o brilho no seu olhar. Dava pra sentir de longe o cheiro de paixão que emanava de vocês. E pela primeira vez desde que te deixei, eu sorri. Agora sei que fiz a coisa certa: você está melhor sem mim.

domingo, 28 de abril de 2013

Pra você gostar de mim

Hoje eu fiz escova, você reparou? Aliás, cortei o meu cabelo semana passada, dizem que você prefere cabelos curtinhos do que aquele - quase crente - que eu costumava ter. Tenho acordado uma hora mais cedo todos os dias para poder escolher a roupa perfeita e fazer uma maquiagem que ressalte meus olhos cor de mel. Fiz um tratamento para olheiras, que parece não adiantar, já que durmo tarde todos os dias pensando em você.

Ontem eu passei pela porta da sua sala várias vezes seguidas para poder te ver de longe, acho que você nem reparou. Comprei o livro que você estava querendo ler, mas ainda não tomei coragem para te dar. Foi difícil achar, sabia? Procurei em várias livrarias até encontrar. Quando olhei ele na estante senti um frio na barriga. Poderia ser ele uma passagem para você gostar de mim?

Tenho tentado descobrir as coisas que você mais gosta. Já estou sabendo que você foi no show da minha banda preferida e que leu o livro que vive na minha cabeceira. Queria te chamar para assistir aquele filme que você havia comentado que estrearia mês que vem, mas fiquei com medo de você dizer não. Até imaginei o jeito que pegaria na sua mão durante o escurinho do cinema e a forma como você me beijaria.

Entrei na academia há algum tempo, você percebeu que já perdi uns quilinhos? Estou tentando entrar em forma. Comprei diversas lingeries para, quando chegar o momento, você não tenha que ver minhas calcinhas velhas, furadas ou de vovó. Mudei o caminho que faço para ir pra casa. Ando um pouco mais para poder pegar o mesmo ônibus que você. Mesmo assim você não me dá mais do que um sorriso e um "boa tarde".

Sabia que tenho ido nos bares que você frequenta pra ver se te acho? Não sei o que acontece, mas parece que você nunca está aonde eu estou. Outro dia cheguei a te ver em uma mesa, mas você estava com umas mulheres bonitas e fiquei receosa de ir te cumprimentar. E se alguma delas fosse sua namorada? Não queria correr esse risco de te perder antes mesmo de te conseguir.

Eu tenho feito de tudo para você me notar. Você ainda não percebeu? Esgotaram-se minhas ideias e você ainda parece tão distante. Já mudei minha aparência e meus hábitos. E agora? O que mais que posso fazer? Por favor, me diz, o que eu faço pra você gostar de mim?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Doce adeus

Depois de anos juntos, chegou o dia que nenhum dos dois podia imaginar que chegaria. Sabiam que brigas existiam, que casais se separavam e que isso podia acabar lhes acontecendo. O tempo passava e as brigas não vinham, o amor permanecia, estava tudo bem. Porém, um dia, em um sobressalto, perceberam que bem não era ótimo e que a relação aparentava mais estar no fim do que no início.. e o meio? 

Será que é preciso um bom motivo para se separar? Não houve traição, nenhuma briga fatídica, ninguém conheceu outra pessoa... é possível terminar um relacionamento sem motivo aparente? Entretanto, falta de disparo no coração parecia motivo suficiente. Ausência de frio na barriga ou ansiedade por encontro.

Os amigos expuseram como achavam ridículo terminarem por isso. "A paixão sempre acaba". A mãe dela ressaltava como era uma atitude infantil e que os dois precisavam encarar a vida adulta. "Vocês tem outras responsabilidades, não há tempo para seguir amando como se ainda fossem jovens e tivessem todo o tempo do mundo".

Sempre tiveram um bom diálogo e foi comum acordo de que as coisas não poderiam continuar assim. Não era rotina, não adiantaria mudar os hábitos. A solução mais adequada foi a de esvaziar o apartamento e seguir cada um o seu caminho. "Quem sabe um dia a gente não se reencontra?", ela dizia com lágrimas nos olhos. Foi assim que cada um procurou um novo lugar para ficar, resolveram as coisas práticas e entregaram as chaves.

- Brindamos?
- Ao que?
- A nós.
- Isto é algum tipo de brincadeira?
- Não... me desculpe se te ofendo. Achei que tínhamos motivos para brindar.
- Nós acabamos de esvaziar os armários, entregar as chaves do apartamento e optar pelo fim... você quer brindar ao que? Ao fato de ter se livrado de mim para sempre?
- De maneira alguma, não foi isso que eu quis dizer. Como propus antes, quero brindar a nós dois. A nossa viagem para Minas, ao pôr-do-sol na lagoa em plena quarta-feira, aos beijos cinematográficos na chuva, ao nosso café preferido...
- Por que você está fazendo isso?
- Ao abraço acolhedor quando o mundo desabou sobre mim, aos jantares chiques e os lanches em fastfoods, aos cafés da manhã na cama, ao sexo de reconciliação, as poesias que você me fez...
- Ao nosso final de semana em Arraial?
- Sim, os em Petrópolis também. E as nossas visitas aos museus, aos cinemas no fim de tarde, aos dias que dançamos juntos até o amanhecer.
- Você não pode esquecer do dia em que conheceu minha família e como deixou todos impressionados com  o seu senso de humor, merece um brinde. E também o dia em que me levou naquela cachoeira de tirar o fôlego, nem de como você me ensinou a dirigir.
- A sua mão que me fez o carinho mais gostoso para adormecer no dia do enterro do meu pai. 
- Ao dia em que me ensinou a tocar minha primeira música ao violão.
- Ao filho que quase tivemos.
- Ao jardim que cultivamos com tanto carinho.
- A sinceridade que preencheu todos os nossos dias juntos.
- Ao companheirismo.
- Aos domingos.
- Ao nosso amor.

Beberam uma garrafa de champanhe, levaram as últimas caixas e amaram-se pela última vez. O sol raiou e acordaram ali, nus, no chão. E, por um breve momento, sentiram-se exatamente como na primeira vez: completos. Aquilo foi exatamente o que precisavam para ter certeza do fim. Era o motivo pelo qual terminavam: ainda acreditavam que o amor poderia ser criança para sempre.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Hoje eu fico com o sim

Eu quero você e não me importa se as coisas estão indo rápido demais, se não era para ser desse jeito. Não me interessa se você está ocupado no momento, se precisa voltar ao trabalho, se está com a cabeça longe ou se você não me incluiu nos seus planos de hoje.

Eu quero você e não me importa se amanhã eu tenho que acordar cedo, ou se você não tem tempo para isso. Não quero saber quem te espera em casa, as responsabilidades que você tem, ou por quem bate o seu coração.

Eu quero você e se a bolsa está em alta, o carro quebrou, as crianças estão na escola, o jantar está te esperando, definitivamente, não me diz respeito. Se está chovendo lá fora, se você manchou sua camisa de café, se o reboque vai passar, eu não quero saber.

Eu quero você e se ele está pensando em mim agora, fazendo planos para o nosso casamento, olhando apartamento, eu não quero pensar. Eu não quero saber se estou usando um anel de noivado que custou os olhos da cara e o amor no coração, se os convites já estão ficando prontos e se eu tenho que experimentar o vestido.

Eu quero você e sei que eles vão ficar decepcionados. O divórcio pode ser traumático; ela vai chorar; as crianças são pequenas demais para entender; custa caro cancelar um casamento; arrumar outra casa; assumir responsabilidades... eu continuo aqui, querendo você.

Eu quero você e vamos nos despir da moral. Esquece a pressão social, os olhares alheios, os pensamentos de outrem, as palavras de todos. Deixemos de lado os pensamentos e vamos sentir. Percebe os sinais que nossos corpos nos dão?

Eu quero você e não me importa as mil coisas que nos dizem não. Eu quero você e sei que você também me quer. Eu quero você e não aguento mais esperar a hora certa. Eu quero você e sinto falta de tudo que ainda não vivemos. Eu quero você e tem que ser agora. Eu quero você e... 

- Eu fico.

sábado, 13 de abril de 2013

Pra dizer a verdade...

Eu menti. Disse que não queria mais; que estava enjoada do seu sorriso; não achava graça das suas piadas; e não me encaixava mais no seu abraço. E quando você me perguntou se era mentira, eu menti de novo. Falei na sua cara que não te queria mais e que era pra você não me procurar. Insisti pra você seguir e frente e esquecer de mim, de nós.

Quando você disse que não conseguia acreditar e chorou, eu senti um nó na garganta e deu vontade de gritar. Mas eu mantive minha postura pra poder te convencer. Era pra você ir embora e não voltar nunca mais. Tive que te deixar esperando na sala enquanto recolhia suas coisas. Se você tivesse visto os meus olhos na hora em que catava suas roupas e nossa foto no porta-retrato me fitava, você teria percebido que era tudo mentira. Como você acreditou quando eu disse que era pra você esperar por que não suportava mais a ideia de te ver no meu quarto?

Eu menti de cara lavada quando vi você entrar no elevador e disse "adeus". E só eu sei o quanto doeu recusar seu abraço e dizer que você não servia mais pra mim. E quando você mandou mensagem dizendo que ainda estava na portaria esperando que eu voltasse atrás, meus olhos sofriam mais do que imaginei a vida inteira. Eu ignorei. 

Só eu sei a dificuldade que foi não correr atrás do seu carro que saiu cantando pneu pela rua. Mais do que te deixar ir, te fazer ir. Doeu. E quando você ligou mais de 30 vezes pro meu celular e eu não atendi. E a cada vez que tocava, era nossa música que entrava em mim e me lembrava que não tinha um pingo de veracidade em nada do que eu dizia e fazia com você.

Eu menti quando você passou por mim com seu novo amor. Menti pra você, pra ela e pra todos. Eu vi sua cara de decepção por não perceber o meu ciúme. E seus amigos me contaram o quanto você sofreu. Eu disse pra eles que não me importava; que não queria saber; que seu sofrimento não me pertencia... não era verdade. Queria te abraçar bem forte e te mostrar que mentia.

Eu menti quando disse que ficaria melhor sem você. É que quando você chegava bem perto, meu coração batia tão forte que parecia que ia sair do peito. E quando você me dava um beijo de despedida, sentia vontade de chorar mesmo sabendo que nos veríamos no dia seguinte. Quando acordávamos de manhã e me via ali completamente nua, completamente sua... sentia medo.

Medo de que acabasse; de que você fosse embora; que me deixasse sem explicação; que nunca mais me dissesse eu te amo. Era desespero o que eu sentia quando notava que não podia mais controlar. Eu tinha saído de mim. Eu estava me tornando um pouco de você. Eu me sentia bem demais e não queria parar de sentir isso. 

Era só você que sabia tudo da minha vida. Mais ninguém conheceu todos os meus lados. Nunca havia permitido que ninguém cuidasse de mim antes. Com você eu conheci o meu lado fraco. Convivia todos os dias com a certeza de que a vida não seria mais a mesma depois que você passasse. Como eu poderia lidar com você indo embora?

Então, menti. Menti para mim mesma. Adiantei o que aconteceria um dia. Controlei enquanto ainda podia. Mandei você embora para nunca te ver indo por vontade própria. Pedi pra que você esquecesse de nós, pois eu não conseguiria fazê-lo nem se tentasse a vida inteira. 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Circulando

Eu sei que eu tenho que te deixar ir. Nada seria mais injusto do que te prender aqui. Você merece muito mais do que essa confusão que se passa dentro de mim. Se nem eu entendo, como posso pedir para que você me compreenda? Como posso dizer para você ficar, se não sei aonde que estou te colocando? Mas dizer adeus...

Não sei de onde tirar forças para te mandar embora. Eu sei que não importa o que eu diga, você sabe que não quero ficar longe. Dizem por aí que o que importa mesmo é o sentimento. Ah, mas se fosse só isso seria tão fácil! Se fosse só dizer que quero acordar e dormir do seu lado... não sobraria dúvidas.

Sou eu é quem complico? Já ouvi muito que mulher é complicada. Mas será que estou errada de querer o melhor caminho para você e de achar que este não é ao meu lado? O seu sorriso é tão encantador! O brilho dos seus olhos ilumina qualquer ambiente! Só de lembrar dos seus beijos me arrepio dos pés à cabeça! Não me sai dos pensamentos o timbre da sua voz que canta pra mim...

Quero seguir, andar pra frente sem olhar pra trás. E se o caminho for um círculo? Então, eu volto. Vou fechar os olhos e andar; deixo você aonde está e sigo... se tiver demorando, eu aperto o passo, corro, viro maratonista. Os ponteiros do relógio vão sempre pra frente e voltam sempre para o mesmo lugar. O tempo vai passar, mas espera! De passo em passo, eu volto pra você!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Romance não-ideal

Eu queria poder te oferecer uma vida daquelas de cinema. Com cenas de amor explícitas, corridas em aeroportos, beijos intermináveis e trilha sonora. Nós teríamos uma música tema que tocaria toda vez que nos encontrássemos. E você me olharia no fundo dos olhos e me sorriria um sorriso de canto de boca pra emocionar o público.

Todas as nossas brigas durariam só alguns minutos, afinal, o filme tem que continuar e os mocinhos precisam viver este amor. E nossa primeira noite seria a meia luz, com pétalas de rosas, ou quem sabe em uma praia deserta a luz do luar... 

Nossas intenções nunca seriam ruins. Nenhum de nós visaria a mágoa, a lágrima do outro, nem por um segundo. Dançaríamos a margem do Sena, brindaríamos com champanhe dos bons e estaríamos sempre maquiados e bonitos. Faríamos discursos de reconciliação, demoraríamos horas para desligar o telefone, tramaríamos surpresas que nunca seriam descobertas antes do tempo.

Nunca estaríamos de mal humor e acordaríamos com o hálito de menta. Você recitaria poesias, gostaria das mesmas coisas que eu e me amaria incondicionalmente cada segundo que passasse. E se tivéssemos que nos separar, seria um final bonito e "melhor assim".

Só tenho para te oferecer o meu amor imperfeito do jeito que é. Recheado de brigas bobas, algumas mais sérias e, às vezes, com frases para te ferir. Um pedido de desculpas sincero, mas sem exageros. Sem maquiagem, com mal hálito matinal e surpresas mal feitas. 

Não gosto de muitas coisas que você gosta, sei que você não conhece meu autor preferido e prefere uma boa partida de futebol ao invés de poesia. Eu tenho TPM todo mês, não gosto de fazer discursos e desligo o telefone rápido. 

Casa comigo?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

E foi

E é quando eu percebo que não posso te culpar, nem culpar a mim mesmo. Percebo que, na verdade, culpa não é e nunca vai ser a palavra. É que é muito mais fácil tentar arranjar culpados, vilões, más intenções, do que aceitar que foi assim e que assim é que tinha que ser. Não é destino escrito em algum livro da vida nem nada parecido, é só consequência. Consequência de diversas ações, reações e inércias que tivemos - eu e você, você e eu, nenhum de nós - e que nos trouxeram até aqui.

Aqui onde eu não sou mais um pedaço de você e meus pedaços são infinitos e esparramados pelo chão. Onde não sei por onde começar e, muito menos, aonde quero chegar, mas não posso ficar parado. Então, ando. Ando e penso. Penso e choro. Choro e continuo. Porque parar não é a solução.

Aliás, solução para quê? Não há problemas; não existem respostas, ou resoluções. Existe hoje. Você aí, de malas prontas e eu, de coração dilacerado e corpo perdido. Perdido de sentido, de caminhos, de mapas. E forte. Fortaleza que não quer deixar transparecer a dor, que quer ser homem da sociedade machista, que quer se fazer de homem que não chora.

Que bobagem! Quantas vezes você já não me viu chorar? A quem quero enganar quando me faço de algo - não consigo nem dizer alguém - que não sou e que não gosto de ser. É que se você me vir chorar, talvez não entenda. Não entenda que é com a dor que quero ficar, não com você.

Por isso vou. Carrego suas malas até o taxi, te dou um beijo no rosto e te deixo ir embora. Não digo adeus, pois não sei se quero que você vá, ou que fique. Ou que vá e fique. Ou que fique um pouco, mas vá. Não sei o que quero, mas quero.

E assim mesmo é que percebo que as intenções não são ruins, nem boas, talvez nem intenções. Não é uma palavra que vai mudar toda a história que nos trouxe até aqui. Então, aceito. Aceito sem aceitar, mas aceito. E entendo sem entender. E vou sem ir. E fico. E fim.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Adicção

Dizem que o primeiro passo para se curar de um vício é reconhecer que o possui e que é impotente diante dele. Parece tarefa fácil, mas só um adicto sabe o quão difícil é admitir sua impotência. Demora para perceber que o querer deixou de ser querer e se tornou precisar. E, mesmo depois de reconhecer, é difícil de se curar.

Há algum tempo comecei a avaliar nossa relação e percebi o quão mal ela me faz. As drogas têm um efeito físico aparente e fazem com que o vício seja mais facilmente notado. Mas não são só elas que viciam - tornam-se uma necessidade no sentido literal da palavra -, pessoas também viciam.

Você se lembra da última briga séria que tivemos? Com portas batendo, ofensas verbais e muitas lágrimas? E da maneira que ela terminou - como sempre - com um sexo intenso e sem um pedido de desculpas? Quando você foi embora eu me olhei no espelho por alguns minutos e pude admitir: "eu estou no fundo do poço".

Desde então venho tentando me salvar. Busquei mudar, te fazer mudar; nada adiantou. Visto que não haveria uma solução para nós como um casal, decidi romper o relacionamento. Porém, só a ideia de te deixar me deu calafrios e deixou minha respiração ofegante, literalmente.

Perdi a conta de quantas vezes fui ao seu encontro decidida pelo fim e, uma palavra bonita, um carinho, um olhar ou um beijo me deu a sensação de que tudo ficaria bem. Começo com "só um gole" e acabo bebendo a garrafa inteira. Aonde vou chegar?

Parei de achar bonitas as frases como "eu preciso de você"; "você é o ar que eu respiro"; "não sei mais viver sem você", Descobri que eu preciso de você e não quero precisar. Eu quero que o amor me adicione e não me complete.

Acabou. Vou procurar uma clínica de reabilitação, um grupo de auto-ajuda, ou qualquer outra coisa que me ajude a superar você, a ficar sóbria, a controlar minha vida. E, quando eu estiver sóbria, poderei responder , de fato, se ainda existe amor.

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