terça-feira, 7 de maio de 2013

(In)Certeza

Todas as relações chegam ao fim. Nunca duvidaram disso. No entanto, essa premissa não permitiu que a dor diminuísse quando resolveram se afastar. Seria melhor assim. Melhor para todos. Como continuar em uma relação cheia de brigas? "Não está dando certo". E com essas frases feitas e clichês - presente em (quase) todos os fins de relacionamentos - terminaram aquilo que um dia chamaram amor.

Ele foi viajar. Tinha férias acumuladas e um destino sonhado: Las Vegas. Foi ao cassino, perdeu, ganhou, bebeu. Relacionou-se com algumas mulheres. Tirou fotos. Retornou para sua vida com a certeza de que as coisas estavam exatamente como deviam ser. A rotina consumia seus pensamentos e não sobrava tempo para pensar na ausência dela.

Ela ficou em casa mesmo. Colocou um tubinho preto e saiu para dançar. Conheceu muitos caras, transou com alguns, chegou a ter mais do que primeiros encontros com outros. Trocou a cama de lugar e comprou novos lençóis. Acordava todos os dias de manhã, lavava o rosto e repetia para o espelho "foi melhor assim".

Passaram-se dias, meses, anos. A lembrança foi ficando cada vez mais distante. As lágrimas cessaram e deram lugar a novos sorrisos. Conheceram novas pessoas, apaixonaram-se. Caminharam cada qual pelo seu caminho e não olharam para trás nenhuma vez. A certeza de ter feito a coisa certa cristalizou-se e tornou-se tão verdade quanto a ideia de Deus.

Ela casou-se com um namorado dos tempos de escola. Exatamente aquele que ele sempre sentiu ciúmes. A vida as vezes apronta essas peças. Encontrou o amor onde nunca imaginou que poderia estar. Nunca tiveram filhos. Viajavam pelo mundo e saiam em capas de revista. 

Ele teve um filho. O casamento não deu certo e quando o menino completou 5 anos, separaram-se. A mãe mudou-se para outra cidade levando a criança. Sempre que podia o filho vinha passar férias com o pai. Doía. Era distância de verdade, física, medida em quilômetros.  Ele sentia falta. 

Um dia, correndo para o seu compromisso, ela tropeçou na rua, quebrou o salto. Correu para o shopping mais perto para comprar um novo sapato. Ele não tinha conseguido parar para almoçar e resolveu ir ao shopping fazer um lanche antes de voltar para o trabalho. Precisava concluir suas tarefas para sair mais cedo e arrumar a casa para visita de seu garoto.

Depois de tanto tempo, encontraram-se. Por mais de um minuto permaneceram em silêncio apenas olhando no fundo dos olhos do outro. Enquanto olhavam-se, passava pela cabeça dela os momentos mais incríveis que haviam vivido. Lembrou-se das noites de frio do lado do cobertor, dos passeios na rua de mãos dadas, do gosto de café no beijo matinal. Ele recordava-se daquele olhar, nunca poderia esquecer. Não era porque os olhos eram azuis e bem desenhados, mas transmitiam clareza e sinceridade. 

De sua boca saíram palavras não pensadas e quase vomitadas "Por que mesmo que a gente terminou?". Ela respirou fundo e tentou iniciar a frase algumas vezes. Aquelas palavras pareciam impronunciáveis. Depois de um breve momento conseguiu responder "porque seria melhor assim". Ele mostrou foto do filho no celular e ela contou que havia casado com o cara da escola. Trocaram meia dúzias de vocábulos vazios de sentido. Despediram-se e voltaram para suas vidas.

Naquela noite, depois do banho, antes de dormir, lembraram do encontro que haviam tido, não no shopping, mas na vida. Buscavam em suas lembranças as brigas que tinham, as mágoas causadas, mas nada vinha. Com o tempo todos os pequenos problemas cotidianos pareciam jamais ter existido. O coração batia forte e um nó na garganta trazia um alerta de choro. Em suas cabeças as palavras ecoavam sem parar... Foi melhor assim.

4 comentários:

Paula Mata disse...

Ahh, não penso em nenhuma música pra esse texto! Mas achei muito bom! =D

Marina disse...

Caraca, muito bom, lele!
Guardaram boas lembranças, nada foi em vão, guardaram o amor, e isso que importa, dando certo ou não, pode ser amor de qualquer jeito.
Guardaram a vida, não a transformaram em fantasma ou ilusão. Tá guardado.
Não terminaram o tal do amor, mas os planos e expectativas que viviam apenas na superfície da consciência, incompatíveis com o amor que carregavam. Acontece, e a gente guarda...

Camilla disse...

Lindo demais esse texto, cara.
Me arrepiei!
As voltas que a vida dá... :)

Bruna Sagratzki disse...

Nessas horas a gente percebe como a vida é cheia de surpresas e de voltas! E o coração aperta. Texto maravilhoso de se ler, muito bom!

Contador de Visitas