domingo, 19 de maio de 2013

Ponto morto

Estava tudo bem. Eu não me importava - até achava bom - em tomar meu café sozinho todas as manhãs, fazer meu próprio nó na gravata e sair de casa sem ninguém para desejar bom dia. Trabalhar, malhar, comer, assistir filme, ler um bom livro e me esparramar na cama inteira só pra mim, estava gostoso. Há quem amaldiçoe a rotina que julga tão entediante, eu não. Eu estava curtindo essa nova maneira de ser dono de mim, não calcular danos e fazer o que dá na telha.

Eu estava jantando em casa e não era ovo frito. Aprendi a fazer as receitas mais inusitadas que nunca havia pensado em fazer. E dá para acreditar se eu disser que li todos aqueles livros que eu vivia postergando? Gostei de alguns. Pintei a parede do meu quarto de azul como eu sempre quis e a cor caiu perfeitamente: parecia que eu estava imerso em uma maré de calmaria.

Estava tudo tão meu: controlei todos os passos que dei. Comecei a fazer terapia porque me falaram que eu me sentiria melhor, e eu gostei. Eu comi o que quis, vesti o que quis, acordei e dormi quando eu quis, fui aonde quis. Acho que pela primeira vez eu não tive que me contrariar e estava bom assim.

Ai eu encontrei o seu olhar e ele me sorriu. Quando me dei por mim, estava olhando para frente, para os lados, para trás: para fora. Acordar não tinha mais o mesmo ritmo, dormir levava muito mais tempo, até o cardápio sofreu alterações. E eu perdi o controle. 

Eu passei a te querer e nem sabia o que fazer. E nada estava bem. O meu movimento passou a se confundir com a maneira como você mexe no seu cabelo, o timbre da minha voz ajustou-se aos tons claros que você veste todos os dias, os meus passos caminharam para onde você estava.

Foi quando o seu olhar me encontrou e eu sorri para ele. Pintamos a parede de amarelo, os livros acumularam-se na escrivaninha e fiquei só com meia cama. Não faço mais  tudo que quero e o tempo não é só meu.

Está tudo melhor.

4 comentários:

Camilla disse...

Awn... Escreveu esse texto pra mim, gata? Hahahah to zoando.
Adorei!

Marina disse...

Caraca lele, que intenso. Nunca parei pra perceber isso, principalmente agora que realmente existem outras responsabilidades e planos para serem jogadas pra fora da rota. A qualquer momento.
A paixão é totalmente contra-rotina, por isso enlouquecedora. Essa ideia é muito forte, muito intensa... Mudar a vida pra ponta-cabeça.
Enlouquecedor exatamente porque não se espera, simplesmente surge e te dá outro sentido. Que loucura, que arrebate...

Paula Mata disse...

Que tudo! Essa perda de controle é tão maravilhosa... Eu vivo pensando sobre isso. Ainda quero um olhar que me sorria e bagunce tudo de novo... É o que faz a vida ter brilho, essa desorganização. =)

Anônimo disse...

poxa... e ainda tão emocionante!

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