segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Festa de despedida
G:- Oi..?
B:- Oi... (sorriso trêmulo) Você veio.
G:- É, eu vim.
B:- Quer sentar? Pega uma cadeira!
G:- Não, não... passei só pra te dar um beijo mesmo.
G:- E aí? Como é que cê tá?
B:- (gaguejando) Eu tô?... eu tô bem... eu tô (respiração) animada com tudo isso aí que vem agora.
G:- É, novo país, né? Que dia você vai?
B:- Semana que vem. Chego lá na quarta.
G:- É trabalho?
B:- Isso.
G:- Tá feliz com isso?
B:- Com a viagem?
G:- É, com trabalho novo!
B:- Tô sim.
(silêncio e troca de olhares)
B:- Cê... cê é feliz?
G:- No meu trabalho?
B:- Não... na vida.
G:- (suspiro)
B:- Eu quero que você seja feliz.
G:- Obrigado. Eu tô bem.
B:- Você... tá bem ou você também?
G:- Também o quê?
B:- Também quer ser feliz.
G:- (sorriso sem graça) acho que todo nós queremos, né?
B:- Não sei, é?
G:-Você nunca desiste?
B:- De que?
G:- Sei lá... você já desistiu alguma vez?
B:- Já! (surpresa)
G:- (sorriso com ar saindo do nariz de uma vez) Duvido...
B:- (levanta as sobrancelhas, balança a cabeça entre o não e o sim).
(risos)
G:- (em tom cortante) A Júlia tá grávida.
B:- Uau! Há quanto tempo?
G: - Sei lá, acho que dois meses.
B: - E vocês estão bem?
G: - Se a gente também?
(risos)
B: - Pelo visto não sou só eu que tô mudando, né?
G: - É, parece que não.
B: - Não quer mesmo uma cadeira?
(silêncio e longa troca de olhares)
G: - Não, eu vou embora mesmo.
B: - É...
G: - Boa viagem!
B: - Obrigada!
(um abraço rápido)
B: - Espera, Gabriel.
G: - Oi?
B: - (olhando fixamente nos olhos) De você.
G: - Não entendi.
B: - Eu desisti de você...
(...)
G: - Eu sei... eu também.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
O último texto que escrevo pra você
Cê disse que ia embora, que o que a gente tinha já não era amor há muito tempo. Engoliu as lágrimas e acabou com todo e qualquer fluído entre nós. Enrijeceu o corpo até se tornar pedra e rolou pra bem longe de mim. Foi espinho, ferroada, veneno, acidez. E da sua forma cortante abriu um buraco e me corroeu por dentro até não sobrar mais vestígios daquilo que eu reconhecia como "eu".
Cê foi embora e não olhou pra trás nem pra ver meu último aceno. Passou rápido fingindo que não se importava. E me fez acreditar que tudo que a gente tinha vivido não passou de ilusão, de mentira, de tempo perdido.
Você retirou sua presença e o que sobrou no lugar foi tudo menos ausência. Foi excesso de dor, de saudade, de perguntas, de desespero. E busquei na profundeza da minha pele qualquer coisa que me fizesse ter esperanças de sorrir novamente. Porque qualquer sorriso havia se tornado triste e só aparecia pra disfarçar pro mundo a dor que eu sentia.
Passou o tempo e você deixou de ser pensamento, ou sonho. E pude preencher minhas lembranças com outros momentos, inventar outros eus que coubessem, que servissem. Você foi deixando de ser mágoa e foi se tornando texto: cê deu origem aos meus mais belos escritos. Transformei dor em palavra e dei passagem ao afeto: te construí, destruí, reconstruí.
Parei na página em branco. E nem um fiozinho mais do que você me fez sentir pôde preencher esse vazio. E de repente essa página pôde ser qualquer coisa que não fosse você. E eu pude ser qualquer coisa que não fosse nós. E tudo pôde.
Agora você passa por mim e finge que não me conhece. E eu? Eu escrevo esse último texto para você. Pra dizer que eu também to indo embora e que o amor... já não é a gente há muito tempo.
terça-feira, 10 de março de 2015
Como eu te vejo
Lembra daquele dia no bar? Eu me lembro como se fosse ontem. Tomava minha cerveja e fumava meu cigarro, pensava nas páginas e mais páginas que teria que ler quando voltasse pra casa. Os olhos só se dirigiam pra fora pra olhar o garçom e "amigo, vê mais uma gelada". Sei lá como, ou porque, de relance, vi seus cabelos caídos na testa. Não tinha sol, mas eu podia jurar que a luz refletia nos teus fios e iluminava o ambiente inteiro. Esqueci os capítulos, o cigarro, os problemas, e foquei meu olhar no que de mais bonito havia naquele bar sujo em plena quarta-feira. E eu não pude deixar de notar as gotas que escorriam pelo seu rosto.
Não sei se o que mais me marcou nesse dia foi o seu sorriso meio torto dizendo que eu podia pegar a cadeira ou se foi minha súbita determinação de andar até você. Sei que fui. E entre cervejas geladas e sorrisos carregados de mágoas, a gente trocou confidências e telefones.
Você disse que era para eu ir embora, que você era problema, que um cara legal assim não deveria olhar pra você. "Eu tô ferrada, vê se me esquece". E não sei se foi descrença da minha parte, mas o jeito que você me mostrava seus piores lados me fazia acreditar que você estava exagerando e que era só uma bad vibe que iria passar no dia seguinte. E eu fiquei pra esperar o dia seguinte. E o próximo. E mais um.
Eu pude acompanhar de perto tudo aquilo que você chamou de ferrada e, garota, eu devo concordar, você tá ferrada mesmo. Tá ferrada porque o mundo é pequeno demais pra você. Estreito demais pro seu talento, pra sua arte, pra sua poesia. E se você se sente sufocada é só porque a sua expansão tá esbarrando nas barreiras do mundo. Mas, deixa eu te contar: toda grade é vazada. Você pode voar, e se não der pra voar, escorre. Se remolda e sai daí. Respira e vai pro mundo. Só o que é rígido não consegue passar.
Hoje faz um ano. Um ano que eu te disse que se a cadeira estava vaga, eu iria sentar. E fiquei pensando em todas as coisas que queria dar pra você. E esquece poesia, chocolate, carta de amor. Se eu pudesse escolher uma coisa, só uma coisa, eu te daria a minha visão. Porque só o que eu queria, garota, é que você se visse como eu te vejo.
segunda-feira, 2 de março de 2015
Entretanto
O plano era ir até a sua casa e falar meia dúzia de palavras sem sentido pra ver se elas traziam algum sentido pra nossa relação. A gente anda meio sem saber pra onde vai, tropeçando nas nossas próprias pernas, caindo em lugares que não queremos estar. Era pra tentar dar alguma forma pra isso que a gente tá tentando viver conforme vai vivendo; que não fosse forma fechada, mas que você soubesse - ou pelo menos diminuíssem as dúvidas - onde eu quero estar.
É que eu nunca entendi a diferença que algumas palavras colocadas em sentenças podiam fazer para nós. E você acha que eu não demonstro, que eu não digo, que eu não quero. E sei que isso mexe na tua insegurança e eu juro que to tentando mudar. Eu ensaiei mesmo as palavras no espelho enquanto passava lápis no meu olho e pensava em você abrindo a porta. E talvez eu tenha ressaltado mais os olhos do que preparado o texto, mas é que eu realmente acredito que meus olhos são melhores oradores do que eu. Ainda assim, eu queria que você soubesse. Eu queria que você ficasse.
A intenção era essa quando tomei minhas doses de tequila e minhas respirações profundas. Eu sei que você odeia quando eu bebo e o jeito que às vezes passo da conta. É que se você soubesse o nervoso que eu sinto quando você está por perto e respira no meu pescoço dirigindo algumas palavras para o meu ouvido, talvez pedisse mais uma dose.
E eu tento acalmar o medo, apaziguar a ansiedade e dizer pra mim mesma que você não é como os outros; e que não vai embora quando eu resolver me abrir. É que eu to cansada de usar "sempre" pra falar de amor e to apostando minhas fichas, mesmo que com prudência, em você ser o "mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto".
E no caminho não parava nenhum táxi; eu resolvi ir andando. E a chuva caiu; eu fiquei encharcada. Pensei mil vezes que aquilo tudo tava errado e era um sinal para eu voltar pra casa; que seus textos, músicas e suspiros, por melhores que fossem, deveriam ficar longe de mim. O ideal era você ser só mais um que passa pela vida e deixa um pouquinho de prazer no corpo, mais um que não ligou no dia seguinte, mais um que eu não atendi. Mas... mas você foi mais e eu encarei a chuva, o escuro e o medo.
O plano era ir até a sua casa e falar meia dúzia de palavras sem sentido pra ver se elas traziam algum sentido pra nossa relação. E as palavras escorreram com meu suor, com a água da chuva e se fixaram na escuridão do corredor enquanto eu esperava você pegar as chaves. Eu não sei mais qual era o plano, mas eu entrei.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Você me deixou sem palavras
A gente tava indo bem. Você pegou minha mão com delicadeza, me embalou num sorriso bonito e me chamou pra sair. Elogiou meus óculos, meu sorriso, meus textos. Abriu a porta do carro dizendo que isso não era cavalheirismo, mas gentileza. E eu merecia todo o seu lado doce.
A gente dançou junto a noite inteira e eu fui com você no hospital ver seu pai. Não importavam mais os planos para a noite, aquilo era mais urgente. Você foi virando urgência que rouba lugar de planejamento. E não foi nada disso que eu planejei.
Eu ainda tava acendendo a luz pra enxergar no olho mágico, e você já foi entrando sem me deixar ponderar se valeria a pena abrir a porta. E eu acho que eu teria feito que não tem ninguém em casa e te deixaria do lado de fora até cansar de esperar.
É que você deixou a cerimônia de lado e chegou ocupando todo o espaço que encontrou pela frente. E já não importava mais se era um gato ou uma almofada, você quis sentar e disse que daqui você não ia embora.
Eu tentei explicar que isso não ia dar certo. Que ele disse que eu não entendia nada de amor e eu acreditei. E eu tava com o discurso pronto, na ponta da língua. Ensaiado tantas vezes que eu não iria gaguejar.
O que você queria me dizer? E eu perdi as palavras.
A gente dançou junto a noite inteira e eu fui com você no hospital ver seu pai. Não importavam mais os planos para a noite, aquilo era mais urgente. Você foi virando urgência que rouba lugar de planejamento. E não foi nada disso que eu planejei.
Eu ainda tava acendendo a luz pra enxergar no olho mágico, e você já foi entrando sem me deixar ponderar se valeria a pena abrir a porta. E eu acho que eu teria feito que não tem ninguém em casa e te deixaria do lado de fora até cansar de esperar.
É que você deixou a cerimônia de lado e chegou ocupando todo o espaço que encontrou pela frente. E já não importava mais se era um gato ou uma almofada, você quis sentar e disse que daqui você não ia embora.
Eu tentei explicar que isso não ia dar certo. Que ele disse que eu não entendia nada de amor e eu acreditei. E eu tava com o discurso pronto, na ponta da língua. Ensaiado tantas vezes que eu não iria gaguejar.
O que você queria me dizer? E eu perdi as palavras.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Um suspiro no meio das pedras
A gente respira fundo pra encher os pulmões de vida. No intervalo da nossa rotina, da nossa mesmice, da nossa rigidez. Logo a gente... a gente que prometeu que faria da vida um eterno carnaval. A gente que se amava na cama, na beira do rio, na areia fria na noite de verão. A gente que se amava pelo olhar, pelos ruídos, no toque das mãos. A gente que não tinha limites pra ser.
Eu suspiro na busca de encontrar respostas. Mas ar nenhum me explica como foi que a gente chegou nesse lugar. A gente era pássaro itinerante e a única pedra que nos parava era a do Arpoador. O céu cor de laranja no fim de tarde. Você sempre dizia que as palmas eram pro meu sorriso. E agora eu já nem me lembro de sorrir.
Quando foi que a gente virou pedra? Quando foi que a leveza do vento paralisou nossa dança? Nossos giros têm me deixado tonta. Você me dizia pra fixar num ponto que resolvia. E meu ponto fixo era o seu olhar. Eu me perdia em você e agora não te encontro mais. Agora eu não me perco. Sei exatamente onde estou.
Pega a minha mão, entrelaça seus dedos nos meus e diz que é assim que você quer ficar. Eu fico contando os dias para fevereiro, para vestirmos nossas fantasias e irmos juntos pra rua. Para a nossa realidade voltar a ter purpurina, pra gente voltar a ser carnaval. Para eu te encontrar na minha multidão e respirar no meio das pedras.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
"No meio do caminho"
Sabe um sorriso bonito? Então, ele tem. Desses assim que dá vontade de parar qualquer coisa só para ficar olhando. E quando eu percebo já mergulhei na sensação que ele me provoca e fui embora. Embora dessa razão opressora que me diz que é melhor olhar pro lado e fingir que não viu; que tenta me convencer que o melhor que faço é parar onde estou e dar dois passos para trás.
Para trás, sabe? Naquela parte do caminho em que você já esteve e que pode até ser meio assustadora, desagradável, desconfortável, mas é conhecida. É aquele pedacinho de terra que você já sabe a cor, o entorno, o cheiro, o gosto. Isso te faz acreditar - ilusão - que está no controle.
Controle das causas e dos efeitos. O peito infla, a coluna erige e a gente diz que está seguro. E o engraçado é que a proteção funciona mesmo, em muitos aspectos. A gente repele qualquer coisa que o corpo diz "atenção, perigo" e volta mais dois, quatro, seis... passos para trás.
É que se desse mesmo para andar ao contrário estava tudo certo. Mas a gente continua andando pra frente porque é a única forma que sabemos, mesmo que a passos de formiga. E no meio do caminho tinha um sorriso, tinha um sorriso no meio do caminho. E eu sorri de volta.














