quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Assassinato

Respiração ofegante. Mãos ensanguentadas que ainda seguravam a arma do crime. Meus olhos arregalados puderam perceber a crueldade que havia cometido. O corpo ainda estava quente e o sangue molhado. Os seus olhos permaneciam abertos e voltados em minha direção. O olhar continuava o mesmo de quando havia vida: gelado. Sempre me incomodei com a maneira fria como você me olhava. Agora posso dizer que seu olhar parece muito melhor encaixado neste corpo frio e sem vida. 

Eu não queria que tivesse terminado assim. Por inúmeras vezes tentei te alertar que nada estava bom do jeito que estava. Você esboçava um sorriso no canto da boca - exatamente igual ao que seu cadáver guarda - e dizia que eu me preocupava demais. Não era com indiferença que você me tratava? O destino gélido de seu corpo me parece bem adequado.

Nunca havia tempo para conversar. Você não se importava o suficiente para falar e insistia em demonstrar a tortura que era me ouvir. Este corpo imóvel que me fita escutará absolutamente tudo que tenho para dizer sem fazer reclamação alguma. O jogo virou e agora sou eu quem dá as cartas.

Vivíamos uma vida banal. Perdi a conta de quantas vezes tentei te mostrar o caminho sem volta que estávamos seguindo. Você nunca pareceu tentar, de fato, quebrar a rotina monótona que nos envolvia. O que pode ser mais monótono do que a morte? Seu corpo agora viverá da maneira exata como você queria me fazer viver. A morte lhe cai bem.

Eu me entrego e confesso: eu matei. Matei para renascer. Matei e mataria de novo, quantas vezes fosse preciso. Há tempo que eu não sentia o calor do seu corpo, o aconchego do seu olhar, o timbre da sua voz. Por isso, lhe dei a única coisa que ainda podia: uma facada certeira para colocar fim ao nosso sofrimento. Eu matei. 

6 comentários:

Marina disse...

Adorei esse lado obscuro! Quero mais!

Nathália BG. disse...

Adorei Helena Christie :) quando quiser filmar essa cena me avisa que já tenho várias pessoas em mente para ser o assassinado :p

Camilla disse...

Sombra da Helena. Hahahah. Curti!

Diogo disse...

anotado. nunca deixar de ouvir a Helena. :D

Paula Mata disse...

MEDO do comentário da Nathalia! hahahaha! Adorei o texto, me lembrou uma música! =D Só que tenho vergonha alheia de mim mesma pra postar. HAUHAUHAUAHUA. Beijos!

Anônimo disse...

nossaaaa, foda!

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