quinta-feira, 29 de junho de 2017

Habitar o vazio

Sempre achei que o vazio era algo como o escuro. Imaginava que o caos era algo parecido com o apagar das luzes antes de dormir. Com aquele espaço de segundo aonde se via tudo e, de repente, não se pode enxergar mais nada. Aquela passagem entre a claridade e a escuridão; entre a clareza e o não-saber.

Vivo oscilando entre o prazer e o medo de estar no escuro. Em alguns momentos encontrar-me comigo só é possível de olhos fechados. Em outros - por vezes os mesmos - fechar os olhos me leva ao desespero de habitar o desconhecido. Então, acendo as luzes. Sempre tive um abajur ao lado da minha cama.

Dormir por vezes é tão difícil que, ao aproximar-me do sono, sonho que caio. De repente um buraco sem fundo que nunca existiu me toma por completo e me desperta da ainda recente tentativa de dormir. Sinto meu corpo caindo na cama. Espasmos de susto e sensação de que ultrapasso meu colchão e continuo descendo para baixo, para além do chão... Não há nada que me segure.

A respiração se acelera. Sei que sinto medo. Algumas vezes o impacto é grande e me desperta ao ponto de precisar de uma luz, em outras, a vibração acelerada se acalma e volto a dormir. 

Entrar em sono profundo é cair da própria cama.

Habitar o vazio é perder-se naquilo que não se pode ver.

Mas há sempre uma luz para ser acesa. O sol sempre nasce no dia seguinte e invade minhas retinas me lembrando do dia, da claridade e de levantar-me. A peculiaridade da escuridão é justamente a consciência de que existe uma luz que vem, uma iluminação possível, mesmo que inalcançável.

Ontem acordei e não consegui me levantar. Sentia o corpo pesado ainda na cama implorando para que o despertador parasse de invadir meus ouvidos e me deixasse ficar ali por mais alguns minutos, horas, ou talvez o dia inteiro. Sentia-me incapaz de habitar a luz do dia, desejava a escuridão do sono que me aproxima de mim.

Tem vezes que nos afastamos tanto de nós mesmos que, quando nos percebemos, já não sabemos onde estamos.

Cedi aquele pedido do corpo entendendo que não era uma escolha ou decisão, mas uma informação à consciência de algo que não era discutível. Por alguns segundos senti meu corpo por completo no colchão, tive a dimensão de que estava inteira e apoiada em uma superfície capaz de me segurar. Era dia e o sol invadia a minha retina mesmo através das pálpebras fechadas.

Foi aí que percebi que o caos é, na verdade, um excesso de luz. Nas inúmeras informações que me chegavam por todos os meus canais sensoriais só o que eu via era o branco. O branco, o nada, o espaço indefinido. Não havia nenhuma luz que eu pudesse apagar. O vazio não tem a ver com a falta, mas com o excesso.

Desejei poder cair de minha própria cama.

Continuei amparada pela superfície.



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